maio 21, 2010

há em uma ilha
uma praia
e na praia uma pedra na qual dormimos
(e na pedra o resto da história)
MAS NÃO ACREDITO EM NADA DISSO

não acredito no mar
embora finja
que não me incomoda
o delírio

maio 07, 2010

Silvia chamou Helena de provinciana [Helena, que morou cinco anos na Europa] depois quis transar ela. Helena chamou Silvia de provinciana.

abril 26, 2010

É preciso encontrar o ponto em que, do individualismo, nasce o coletivismo contemporâneo: é desse sentimento de criação que a lírica moderna pós-baudelairiana, subjetiva e individual, pode inventar o novo, em fusão com a lírica clássica da epopéia coletiva.

abril 20, 2010

lista de coisas que eu não suporto - 1

essencial
paradoxo
escritores
pessoas que criticam coisas que outras pessoas gostam perguntando se é verdade que as pessoas gostam da coisa.

abril 17, 2010

No dia seguinte, tudo continuou normal. É bom saber que aquilo que fizemos - um ato condenável ou irrepreensível - não altera em nada a continuidade do Universo. É um ponto apenas. A coisa toda beira o delírio. A lembrança da coisa - a lembrança; o ato foi lúcido. Mas o Mundo permanece intocado por qualquer impureza que possamos ter criado. O Mundo, além daquele corredor, é uma continuação infinita de momentos neutros: nada é impuro em essência.

abril 16, 2010

Deus, como o Sujeito, é um fato literário. À humanidade não resta nem a experiência de acreditar em Deus. A experiência religiosa está morta assim como está morta a certeza cartesiana de existir ou o sujeito da experiência comunicável ou a certeza em si ou o mito da evolução contínua ou a ideia de um tempo feito de instantes futuros fugazes e inapreensíveis que se devoram em passado. Estamos mortos, todos.

abril 13, 2010

space flow

o sentimento se estende por muito tempo
como manteiga em uma fatia de pão grande demais
e isso é bom: o tempo

a gente se arrasta pelo tempo - e é bom se arrastar pelo tempo - e ele
dura tanto
tanto
que eu nem sei o que éramos (antes do tempo) quando a vida era contínua

falávamos em distâncias, vazios, mas não sabemos o que é distância
DISTÂNCIA NÃO É ESPAÇO - alguém grita
no espaço
vazio / na distância de um salto, ninguém responde

talvez nunca tenha existido ninguém
talvez tenha sido tudo um grande engano                                     talvez distância nunca tenha sido espaço em branco
e os enganos nunca tenham sido meus

eu perpetuo enganos: uma manteiga infinita, um camada fina
de pecados

antes
    era como geléia e nata
e era bom

abril 09, 2010

Poets and artists live on frontiers. They have no feedback, only feedforward. They have no identities. They are probes.

(Marshall McLuhan)

fevereiro 02, 2010

Eu tinha um copo de vidro longo com uma flor de plástico vermelha dentro e dentro do copo eu costumava colocar bitucas até que um dia ele encheu, transbordou, e um dia quebrou. Era uma boa imagem, a do copo com os cigarros fumados e a flor vermelha de plástico saindo de dentro do longo cilindro de vidro. Era um copo de suco, acho, que roubei em algum lugar - eu costumava roubas coisas: copos, canecas; tinha uma caneca grande que chamávamos de egoísta porque dentro cabia inteira uma cerveja de garrafa - mas não lembro onde. Uma vez bebi uma garrafa de cerveja em 5.8 segundos. Uma vez bebi dois terços de uma garrafa de vodka em 32 elefantes. Uma vez - tenho cicatrizes para provar.

janeiro 19, 2010

Dentro do fluxo há um outro fluxo
De palavras
Que se estendem contínuas e ninguém pode tocá-las,
ninguém
Nem mesmo quem as criou -- O ponto das palavras é que ninguém as criou Nós não escrevemos
mais Agora, quando escrevemos, falamos
Agora

janeiro 18, 2010

pretending i'm making beats

"Como se houvesse a necessidade - não de uma história -, mas da possibilidade de contá-la como"

janeiro 15, 2010

Isqueiros não caem do céu essa é a triste verdade da vida

Não havia ninguém que pudesse me emprestar fogo no ponto de ônibus

O céu
acima de nossas cabeças
era azul-porém-preto
e eu sabia que a cidade seria inundada
e completamente destruída como haviam sido todas as outras cidades um dia

A cidade nunca foi enterna: não essa cidade; esse cigarro

Só queria fumar um cigarro antes disso:

antes do ônibus
antes que se descobrisse alienada a minha vontade de fumar ai meu deus

Li que obesidade é pior para a saúde do que tabaco
dá para acreditar?

Decidi fumar mais; comer menos / fumar mais para comer menos.

dezembro 17, 2009

Sobre segredinhos

Luís Carlos Borges fez na década de 70 uma conferência secreta na livraria clandestina Zékian, em Paris. Nesse encontro, Borges contou como seu pai não conseguia recordar da juventude. Não existem recordações de imagens, explicou, apenas memórias construidas a partir de outras memórias, nunca da realidade.

Isso me intriga.

Tentei falar com Enrique Vila-Matas outro dia, para perguntar se a livraria Zékian, de porta branca, de fato existiu, ou se ele a inventou.

No Google, não achei nada que não se referisse ao livro Paris não tem fim, de Vila-Matas, ou a um autor chamado Stéphane Zékian, que aparentemente escreve em francês e em alemão e que possuiu o email stephane.zekian@wanadoo.fr.

Wanadoo é um ISP francês e por isso não entrei em contato: não confio em quem não usa Gmail.

O narrador de Vila-Matas vai uma segunda vez até a Zékian, onde riem dele quando fala a senha que deveria falar para entrar e tem um encontro estranho, com pessoas que não conhecia.

Imagino que as pessoas que frequentavam essa livraria clandestina em uma Paris livre fossem estúpidas como as pessoas que aqui frequentam o Bar Secreto; que gostam dessa aura de clandestinidade. A clandestinidade, que traz um sentimento próximo daquele despertado pelo exclusivo.

Embora, até onde sei, esta seja uma São Paulo livre, há esse movimento de secretismo, para falsificar uma aura.

P.S.: assim como Borges esteve na Zékian, pessoas legais podem estar no Secreto nesse exato momento. E isso não muda nada a idiotice de um ou de outro lugar.

dezembro 13, 2009

Em Montevidéu, no mês de Abril de 2007, o irmão mais velho de Helena, Otávio, comprou em um sebo no centro da cidade por apenas dois pesos uma edição em espanhol de Os Cantos de Maldoror. Esse livro foi escrito originalmente em francês por Isidore Lucien Ducasse, um poeta que nasceu no Uruguai em 1846 e morreu em um hotel na França, 24 anos depois.

Ducasse ficou
mais conhecido na história da literatura pelo pseudônimo de Conde de Lautréamont. Pouco mais se sabe sobre ele. Em 1977, encontraram na Espanha uma edição da Ilíada de Homero em que havia uma inscrição afirmando que o livro, no passado, pertencera ao señor Isidoro Ducasse nacido en Montevideo (Uruguay).

Há algumas semanas, Helena encontrou dentro do Cantos de Maldoror um manuscrito, em português, escrito para Eládia, por Enrique, em Buenos Aires. Otávio, que não leu os Cantos todos, nunca havia encontrado o texto. Nada mais se sabe sobre Enrique e Eládia. A versão transcrita abaixo é literal.

Eládia. Eládia. Quanto de ti preciso agora? E porque não posso ter? Porque pequei, bem claro, pequei. Mas e as palavras? As palavras não poderiam explicar. E eu me entregaria ao vórtice, como quis me entregar uma vez; eu me entregaria a queda. E estivéssemos errados. Me entregaria. Agora me chamas diluição, desilusão. Passei o dia pensando em te escrever, o dia todo; mas um certo lirismo me impelia sempre ao esconderijo que há atrás das paredes de minha poesia. Agora, derrubo-as. Sem mais fugas, que as cometi demais na vida.

E me perguntavas: nos apaixonamos por pessoas ou por contextos? E eu respondi “contextos”, que é como pensava. E ainda penso! Mas você, você Eládia, você foi além; e agora vejo que ainda estás aqui. Não adianta me mandar ter com minhas “outras”, ou como se refira a elas, e nem me chamar mais uma vez daquilo tudo que quer chamar (com direto; dou-te à face para o tapa do fracasso). Pequei pelo meu fraco por manipular os outros; sou um poeta mentiroso que passa os dias escrevendo para manipular as pessoas. Só que não você Eládia, não você, que tudo foi natural e perfeito.

Mas agora me gritas “pára!”, se tento explicar que aquilo. E não é o que eu quero, a decisão que não tomei; agora vejo melhor. Vaidade minha. Num momento de dúvida, faço com que ela se apaixone por mim só para alimentar meu ego, meu orgulho ferido. Sonhei penhascos, admito; mas logo retornei à queda, a nossa queda; e foi novamente por vaidade que não aboli o outro, dizes, romance. Ah, que fui diluído, e fiz as cosias novamente da maneira errada. Agora passeio pelas ruas de uma Buenos Aires que apesar de real, é imaginária; sozinho e quieto.

Como será amar em Buenos Aires? Será que ainda poderei saber Eládia? Que não está há paixão para onde me mandou. Um preciosismo barato de querer manipular. Bem claro agora. E não falo mais. Neste momento, não há porque esconder nenhum sentimento que eu posso ter – ou criar. Não espero uma resposta, não precisas me responder. O importante é que eu escreva, e que leias, e que saibas. Saibas que algo em mim me diz que não há como continuar, não agora, não assim. Não há. Quanto te olho Eládia, um simples olhar, sei que não há. De que me adiantaria buscar outros sentimentos se já criamos tudo o que eu precisava?

É preciso que saibas que, de alguma maneira, a vida deve continuar; e que sinto, momento após momento, que ainda te desejo; que ainda te quero mais que a tudo. Sempre impedido pelo lirismo da minha poesia simbólica demais, não disse como deverias ter dito que te desejo. Quando escrevi “como nas quedas orquestradas”, deveria ter logo escrito que estava irremediavelmente apaixonado. Sempre quis que minha poesia fosse um vasto pedaço de tango sobre nada. Por isso agora assumo esse dramaticidade, esse trágico. Por isso me refugio em terras portenhas e imagino como seria amar ao som de Gardel, ou de Piazolla. E falar do amor, falar do amor.

Buenos Aires amanheceu gélida; as janelas todas esbranquiçadas. Saí logo cedo e andei algum tempo pelo Caminito, o vento castigando minha face branca até meus lábios quase sangrarem. O céu, de um azul pálido e solitário, sorria, complacente da minha dor. Juro que tentei fazer o que me mandaste. Claro que não funcionou. Nem funcionará; e eu sei disso apenas por olhar para você caminhando em direção ao seu trabalho (sim, depois de te mostrar aquele livro lindo, fiquei encostado na árvore olhando-te ir).

Agora, enquanto tomo um café sob o olhar cuidadoso de Carlos e melodias improváveis me vêm à cabeça, escrevo essas linhas um guardanapo, tal qual fosse uma letra de música improvisada na hora da composição. Apenas diga, e poderias me fazer largar todo o resto; poderias me fazer pétala por pétala reinventar a flor de uma maneira que só nós entendêssemos. Nós e nossa poesia Eládia; nós, nossa poesia. Ah, essa ternura de louco que há em mim.

Enrique,
Buenos Aires, 8 de julho de 2006

novembro 17, 2009

água filtrada

Às vezes ficava tímido de uma hora para outra
como quando não sabia que ela estaria na frente do seu prédio com um all-star dourado e um carinha alto com um pacote de gelo
i.é. um carinha alto e bonito indo para uma festa com um pacote de gelo
um pacote de gelo e mais um amigo, com outro pacote
todos bonitos e bem vestidos, caminhando pela rua com seus pacotes de gelos e eu queria ter um pacote de gelo para chamar de meu