maio 07, 2010
dezembro 13, 2009
Ducasse ficou mais conhecido na história da literatura pelo pseudônimo de Conde de Lautréamont. Pouco mais se sabe sobre ele. Em 1977, encontraram na Espanha uma edição da Ilíada de Homero em que havia uma inscrição afirmando que o livro, no passado, pertencera ao señor Isidoro Ducasse nacido en Montevideo (Uruguay).
Há algumas semanas, Helena encontrou dentro do Cantos de Maldoror um manuscrito, em português, escrito para Eládia, por Enrique, em Buenos Aires. Otávio, que não leu os Cantos todos, nunca havia encontrado o texto. Nada mais se sabe sobre Enrique e Eládia. A versão transcrita abaixo é literal.
Eládia. Eládia. Quanto de ti preciso agora? E porque não posso ter? Porque pequei, bem claro, pequei. Mas e as palavras? As palavras não poderiam explicar. E eu me entregaria ao vórtice, como quis me entregar uma vez; eu me entregaria a queda. E estivéssemos errados. Me entregaria. Agora me chamas diluição, desilusão. Passei o dia pensando em te escrever, o dia todo; mas um certo lirismo me impelia sempre ao esconderijo que há atrás das paredes de minha poesia. Agora, derrubo-as. Sem mais fugas, que as cometi demais na vida.
E me perguntavas: nos apaixonamos por pessoas ou por contextos? E eu respondi “contextos”, que é como pensava. E ainda penso! Mas você, você Eládia, você foi além; e agora vejo que ainda estás aqui. Não adianta me mandar ter com minhas “outras”, ou como se refira a elas, e nem me chamar mais uma vez daquilo tudo que quer chamar (com direto; dou-te à face para o tapa do fracasso). Pequei pelo meu fraco por manipular os outros; sou um poeta mentiroso que passa os dias escrevendo para manipular as pessoas. Só que não você Eládia, não você, que tudo foi natural e perfeito.
Mas agora me gritas “pára!”, se tento explicar que aquilo. E não é o que eu quero, a decisão que não tomei; agora vejo melhor. Vaidade minha. Num momento de dúvida, faço com que ela se apaixone por mim só para alimentar meu ego, meu orgulho ferido. Sonhei penhascos, admito; mas logo retornei à queda, a nossa queda; e foi novamente por vaidade que não aboli o outro, dizes, romance. Ah, que fui diluído, e fiz as cosias novamente da maneira errada. Agora passeio pelas ruas de uma Buenos Aires que apesar de real, é imaginária; sozinho e quieto.
Como será amar em Buenos Aires? Será que ainda poderei saber Eládia? Que não está há paixão para onde me mandou. Um preciosismo barato de querer manipular. Bem claro agora. E não falo mais. Neste momento, não há porque esconder nenhum sentimento que eu posso ter – ou criar. Não espero uma resposta, não precisas me responder. O importante é que eu escreva, e que leias, e que saibas. Saibas que algo em mim me diz que não há como continuar, não agora, não assim. Não há. Quanto te olho Eládia, um simples olhar, sei que não há. De que me adiantaria buscar outros sentimentos se já criamos tudo o que eu precisava?
É preciso que saibas que, de alguma maneira, a vida deve continuar; e que sinto, momento após momento, que ainda te desejo; que ainda te quero mais que a tudo. Sempre impedido pelo lirismo da minha poesia simbólica demais, não disse como deverias ter dito que te desejo. Quando escrevi “como nas quedas orquestradas”, deveria ter logo escrito que estava irremediavelmente apaixonado. Sempre quis que minha poesia fosse um vasto pedaço de tango sobre nada. Por isso agora assumo esse dramaticidade, esse trágico. Por isso me refugio em terras portenhas e imagino como seria amar ao som de Gardel, ou de Piazolla. E falar do amor, falar do amor.
Buenos Aires amanheceu gélida; as janelas todas esbranquiçadas. Saí logo cedo e andei algum tempo pelo Caminito, o vento castigando minha face branca até meus lábios quase sangrarem. O céu, de um azul pálido e solitário, sorria, complacente da minha dor. Juro que tentei fazer o que me mandaste. Claro que não funcionou. Nem funcionará; e eu sei disso apenas por olhar para você caminhando em direção ao seu trabalho (sim, depois de te mostrar aquele livro lindo, fiquei encostado na árvore olhando-te ir).
Agora, enquanto tomo um café sob o olhar cuidadoso de Carlos e melodias improváveis me vêm à cabeça, escrevo essas linhas um guardanapo, tal qual fosse uma letra de música improvisada na hora da composição. Apenas diga, e poderias me fazer largar todo o resto; poderias me fazer pétala por pétala reinventar a flor de uma maneira que só nós entendêssemos. Nós e nossa poesia Eládia; nós, nossa poesia. Ah, essa ternura de louco que há em mim.
Enrique,
Buenos Aires, 8 de julho de 2006
agosto 11, 2009
março 20, 2009
dezembro 27, 2008
dezembro 12, 2008
No banho U se masturbou até o orgasmo duas vezes, na primeira com o dedo médio, e na segunda com um tubo vazio de m&m's. Depois, ficou deitada pensando em Helena e no fim da espera e em Mariana e no fim da espera e em Camila e no fim da espera e no fim da espera e no fim da espera. U sabia que alguma coisa tinha acontecido logo que saiu do flat alugado da Helena querendo ligar para Mariana para pedir desculpas e só não ligou porque era cedo demais e não queria acordá-la. Também sabia que não devia ligar por saber que não precisava ligar para Mariana para pedir desculpas. U na verdade queria estar com Mariana. Queria estar com alguém. Não tinha a mínima vontade de ficar sozinha, e foi por isso que ligou para Camila (Camila estava sempre acordada) e convidou-a para sair. Ainda não tinha entendido o que acontecera e agradeceu quando a amiga disse que precisava mesmo tomar um café. Foi sentada em um banco de praça esperando Camila com uma ansiedade não-natural e tentando se lembrar de detalhes da noite anterior (Quando encontrara Helena? / O que tinham conversado? / Qual música tocara no momento exato do reencontro?), que U sentiu que algo havia acabado e pela primeira vez se deu conta do fim da espera. E com isso veio um gosto de incompleto somado a um sentimento de incerteza sobre o futuro. U às vezes pensava sobre o futuro, claro, mas não costumava se preocupar com ele como se preocupou àquela hora da manhã, com frio, sentada em uma praça vazia esperando uma menina de quem já nem gostava tanto. Só que a presença dela acalmou U, que se sentiu mais confortável depois de fumar um daqueles cigarros fracos que Camila, que quase nunca fumava, sempre tinha.
novembro 01, 2008
outubro 05, 2008
setembro 11, 2008
Mariana estava muito bonita naquela tarde, mais do que o costume para uma tarde qualquer de primavera em que não vestia nada de especial somada a cabelos bagunçados. Também estava de ressaca. Sabia que era impossível ficar em casa de ressaca em um domingo com dois irmãos mais novos hiperativos gritando e brigando cada pequena fração do dia, então aceitou o convite de Renan para tomar sorvete (cerveja). Mariana não se lembrava de metade do que tinha feito na noite anterior, mas sabia que não fora exatamente por causa de Helena que tinha bebido tanto, embora tenha sido por causa de Helena – não do jeito que Helena imaginaria que foi se soubesse (se é que já não sabia) que Mariana bebera tanto. Mariana sabia: Helena achava que ela queria voltar a ter um romance com ela, quando só o que ela queria era transar. Não era mais aquela Mariana de 17 anos presa em uma bolha do tempo que faria tudo para dormir abraçada com ela e falar que a amava. Depois que Helena foi embora para a Europa, Mariana nunca pensou realmente em como seria o retorno. Quer dizer, no começo sim, nos primeiros dias, mas então começaram as aulas da faculdade e entre as pessoas da sua turma ela encontrou U. Por alguns meses Mariana achou que estava apaixonada por U, até mesmo chegou perto de se declarar. Elas faziam sexo, às vezes, mas Mariana, embora já não pensasse em Helena, sentia falta daquela segurança. U não podia lhe dar isso, e ela também logo deixou de querer. Imersa em um novo universo, absorveu tendências e conceitos até que se aproximou tanto da personalidade hedonista de U que U passou a se parecer um pouco com Mariana. Helena, porém, agora que voltou, enxerga Mariana presa na bolha de 2003, junto com a Invasão do Iraque, o segundo álbum do Strokes e a novela Mulheres Apaixonadas. Ela soube, claro, que U, sua grande amiga de infância, estava estudando com Mariana, sua grande amiga da adolescência, mas nunca, antes de voltar, pôde entender o que surgiria desse encontro. E ainda não entendeu. U é que, nessa situação, pôde se deliciar com as histórias que Mariana contava sobre Helena. O primeiro beijo que U deu em uma garota foi nela, quando tinham doze anos. Helena se sentiu muito mal na época, e pelos próximos dois anos que estudaram juntas U guardou para si a inveja que sentia dos meninos que ficavam com sua amiga. E então, quando nem pensava mais nisso, encontrou Mariana, e descobriu tudo o que Helena fez nos três anos em que não se viram e como a lembrança daquele beijo infante marcara com uma idéia de carinhos perdidos a adolescência lésbica dela. Foi aí que U pensou realmente no retorno de Helena. Não da forma como Helena imaginava que Mariana pensaria, mas da forma como Mariana imaginaria se ela mesma pensasse sobre o assunto. E ela até pensa, naquela tarde de primavera em que está linda, com os cabelos pretos despenteados e uma camiseta colorida qualquer, em como seria prazeroso transar com Helena se ela não enxergasse tudo preso lá atrás, com o primeiro disco do Darkness e a primeira temporada de The O.C.
agosto 19, 2008
julho 22, 2008
Helena reclamou para U que Mariana estava preocupada demais em transar com ela. U não prestou atenção, tonta pela mistura de drogas e reencontros inesperados: as palavras de Helena eram apenas desculpas para se aproximar ainda mais. Também não prestou atenção quando Helena contou que Mariana não mudara, que Mariana queria que as coisas funcionassem como há cinco anos, que Mariana estava obcecada. U, se por acaso tivesse processado a sentença, discordaria. Helena é que não sabia que U e Mariana tinham se tornado melhores amigas nesses últimos anos – e isso já era uma grande mudança. Mas U não processou: estava preocupada demais em transar com Helena. Deu um passo à frente e sem dizer uma única palavra beijou-a em meio a um sorriso. U, às vezes, gostava de ser Mariana.
maio 22, 2008
Mariana seguiu Helena, comportada, até o lado de fora da lanchonete e sem dizer uma única palavra tentou beija-la, mas Helena apenas sorriu e Mariana ficou se sentindo traída e estúpida enquanto Helena sorria aquele sorriso de sempre, grande e feliz, que dizia hold on e contava alguma amenidade sobre as festas de Londres ou os motéis de Berlim que Mariana fingia ouvir enquanto mexia nas pulseiras de prata olhando para o nada pensando que bosta e cadê a U? e o que mais eu vou ter que fazer para levar essa garota pra cama? enquanto Helena apenas sorria e falava sobre nada pensando que talvez não devesse ter saído sozinha com Mariana.
março 07, 2008
U se virou. Os cabelos bagunçados cobriam-lhe o rosto. Renan tentou se levantar, mas a cabeça doia muito. Em vez disso, aproximou-se de U, que abriu os olhos repentinamente e sorriu. Como você veio parar aqui?, ela perguntou. Renan sorriu: não faço idéia.
fevereiro 29, 2008
fevereiro 27, 2008
fevereiro 23, 2008
fevereiro 19, 2008
Mariana conheceu Vinícius e Renan na porta de uma balada qualquer. Eram quase quatro horas da manhã e os três estavam extremamente drogados. Vinícius, mais alto, logo chamou a atenção da garota, que demorou um pouco mais para notar o seu companheiro. Dias depois, quando se reconheceram em uma outra festa, nenhum deles foi capaz de reconstruir a conversa que os aproximou, ou que os manteve juntos por boa parte do resto de noite. A primeira lembrança comum que localizaram – se não verdadeira, um delírio coletivo – foi a de Renan e Vinícius bebendo vodka pura e explicando para Mariana uma teoria maluca – embora verossímil – sobre a semiótica do sexo na balada. Vinícius desenvolvera a teoria com Fábio, um colega seu de faculdade. Mariana, de calça jeans (justa) e regata branca (justíssima) dançava incansável entre Vinícius e Renan, concordando com os postulados, os três alheios à balada medíocre em que estavam. Outra lembrança partilhada pelo trio foi a de serem expulsos de um banheiro onde pretendiam cheirar cocaína junto de um aleatório qualquer. De volta à pista, contentaram-se com garrafas verdes de Heineken e baforadas de clorofórmio puro, que multiplicava inúmeras vezes as luzes e as batidas da música da pista de dança em uma sobreposição insana de sentidos e que queimava a pele quando a mira não acertava apenas a manga da camiseta.
