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agosto 21, 2009

plis olhou para o retângulo de papel brilhante com imagens impressas que segurava em sua mão esquerda e pensou que coisa mais tosca e virou o papel para saber se aquilo era de fato tudo e sentiu uma onda de frustração. Era a primeira vez que plis via uma fotografia do século passado, revelada em duas dimensões; desde que se lembrava, o processo de capturar imagens estáticas evoluíra bastante, mas nunca vira nada tão precário. (O próprio conceito de estático mudara, embora plis não atentasse para isso.) A foto tirada por sua mãe quando ainda criança em Mil-Novecentos-Noventa-&-Alguma-Coisa era quase pré-histórica para plis, acostumado com imagens hologramáticas que registravam um instante: algo que para a sua geração durava alguns segundos de movimento - como aquelas fotos mágicas que existiam no mundo de Harry Potter, mas em três dimensões.

junho 30, 2009

Sy (no futuro ele assumiria o nome como seu), um pouco confuso, sentou-se enquanto Luv voltava a contar os frascos na prateleira (Sy descobriu depois que ela se chamava Luv), embora dessa vez ela ditasse uma sequência de números aparentemente aleatória: 16 e 2, 3, com 20, 88. Sy tentava acompanhar, achando-a cada vez mais louca. Lembrava agora que ela era garçonete no bar onde estivera ontem. Luv não queria conversar, pelo menos não até falar em voz alta os números 97 com 324, 1. O resultado improvável da conta a deixou excitada: ele estava abrindo a porta para ir embora quando ela parou de falar e pegou na prateleira um frasco azul comprido, a fita em seu braço brilhando com uma frequência sem cor. Depois correu até a porta e o abraçou. Às vezes eles esquecem, Luv disse, engolindo duas ou três pílulas e entrando no chuveiro.

março 25, 2009

Ela acendeu mais um cigarro antes de continuar a fazer as contas. Era uma das últimas pessoas que ainda fumavam cigarros de verdade, com nicotina e alcatrão. Ele não sabia o nome dela. Não perguntara. Não tenho certeza se depois daquela noite ainda sabia o próprio nome. Ela o chamava de Sy, eu até poderia dizer por que, mas não sei. Sy é o código de domínio na Internet para Síria, mas ele não parecia nem de longe um árabe. Sy - magro, branco, cabelos pretos emoldurando o rosto trágico - parecia Case, um visual cyberpunk nostálgico, embora totalmente inconsciente.

Através da porta aberta ele podia vê-la mexendo nas prateleiras do banheiro, usando apenas uma calcinha, o perfil do rosto escondido pelo cabelo. Eram muito parecidos fisicamente, só agora tinha reparado, embora ela tivesse traços um pouco mais orientais e ele precisasse ir embora. Por isso perguntou onde exatamente estamos enquanto vestia a calça com que saíra ontem, agora toda suja de barro. Não tinha ideia de como voltar para casa, mas ela não respondeu nada. Nada. Apenas entrou no quarto e o empurrou de volta para a cama.