agosto 29, 2008

hot rod funeral

ontem fui em um bar onde os caras
envenenam carros da década de 50.
me falaram toca psychobilly lá, mas era mentira.
tocava marvin gaye.

agosto 19, 2008

Mariana falou para Vinícius, já com dificuldades de articular as palavras: se ela não sabe o que quer não vou ser eu que vou dizer e derramou cerveja por toda a mesa enquanto se dava conta de que saíra para cair de bêbada e reenchia o copo.

agosto 12, 2008

julho 22, 2008

Helena reclamou para U que Mariana estava preocupada demais em transar com ela. U não prestou atenção, tonta pela mistura de drogas e reencontros inesperados: as palavras de Helena eram apenas desculpas para se aproximar ainda mais. Também não prestou atenção quando Helena contou que Mariana não mudara, que Mariana queria que as coisas funcionassem como há cinco anos, que Mariana estava obcecada. U, se por acaso tivesse processado a sentença, discordaria. Helena é que não sabia que U e Mariana tinham se tornado melhores amigas nesses últimos anos – e isso já era uma grande mudança. Mas U não processou: estava preocupada demais em transar com Helena. Deu um passo à frente e sem dizer uma única palavra beijou-a em meio a um sorriso. U, às vezes, gostava de ser Mariana.

maio 22, 2008

Mariana seguiu Helena, comportada, até o lado de fora da lanchonete e sem dizer uma única palavra tentou beija-la, mas Helena apenas sorriu e Mariana ficou se sentindo traída e estúpida enquanto Helena sorria aquele sorriso de sempre, grande e feliz, que dizia hold on e contava alguma amenidade sobre as festas de Londres ou os motéis de Berlim que Mariana fingia ouvir enquanto mexia nas pulseiras de prata olhando para o nada pensando que bosta e cadê a U? e o que mais eu vou ter que fazer para levar essa garota pra cama? enquanto Helena apenas sorria e falava sobre nada pensando que talvez não devesse ter saído sozinha com Mariana.

abril 17, 2008

A máquina do mundo

(texto escrito como exercício de crônica para a aula de redação 7)


Perdi mais quinze músicas: fiquei cinqüenta e dois minutos ouvindo crystal castles e fugazi com o audioscrobbler DESLIGADO e nada foi para o meu perfil no last.fm ou sequer ficou guardado em cache: all lost em alguma ilha sem conexões entre meu computador e a internet. Liguei o plug-in desesperado e comecei a ouvir tudo de novo, over and over and over, para ter certeza de que aquelas músicas existiriam no meu futuro. Mas poderia estar ouvindo outra coisa, se não fosse.

O americano Anthony Volodkin que uma vez escreveu: se eu escutei uma música e não deu scrooble, eu realmente a ouvi?. Sou adepto da teoria que não deu scrobble, não exisitiu. Anthony também deve ser, tanto que criou um plug-in de scrobbler para seu site, o hype machine - que é um agregador de blogs atualizado vertiginosamente com mp3s, organizando um fluxo disperso. Super-appeal de coisas über-novas e mesmo assim dava dó passar muito tempo lá. Mas agora que dá para fazer o bendito scrobble, ninguém mais precisa perder pedaços da vida.

O que rola perder por lá, se bobear, é informação. Um cochilo mínimo e você deixa de ouvir AGORA duas músicas que dali a quatro horas vão ser a GRANDE BADALAÇÃO do momento. Mas na real também não passou, por que ainda está lá para ser encontrado, néam? O hype machine abole a noção de tempo que permaneceu do milênio passado: o presente, no site, é o futuro chegando a cada segundo, se devorando em passado.

É como diz uma amiga: a mensagem do mundo é: NÃO DURMA.

And keep listening.

abril 15, 2008


love

wish i could be a very very tinny label
right in the middle of your tag cloud
among
scooters and vacations and falls
deeply hidden from everyo
ne

hate

queria ser uma etiqueta mínima

na sua nuvem de tags / uma etiqueta
bem bem pequenininha entre outonos férias
e patinetes

luuuv

wish i could be a proud tag
be gigantic in your cloud
well, fuck
small the scooters small the weekends small
the falls

hte

queria ser uma tag mag-
nânima
se fazendo ordem mas construída anônima
queria ser patinetes ser outonos
ser fins de semana

março 07, 2008

Mais tarde, quando acordou na casa de U, Renan não sabia dizer como chegara lá, nem se algo acontecera. U dormia ao seu lado na cama, envolta em lençóis branquíssimos, como sua própria pele, delineando o contorno sutil de seu corpo. Renan estava de cueca no outro lado, mas eles não se tocavam.

U se virou. Os cabelos bagunçados cobriam-lhe o rosto. Renan tentou se levantar, mas a cabeça doia muito. Em vez disso, aproximou-se de U, que abriu os olhos repentinamente e sorriu. Como você veio parar aqui?, ela perguntou. Renan sorriu: não faço idéia.

fevereiro 29, 2008

U e Camila transaram pela primeira vez no banheiro do apartamento de U. Na sala, as outras pessoas ouviam Justin Timberlake e bebiam latas de Kaiser compradras a 95 centavos cada no supermercado a duas quadras e meia dali. U prefiriria ter levado Camila até seu quarto, mas entrar no banheiro e se trancar com ela sem avisar foi delicioso. No quarto de visitas, mais cedo, Mariana transara com um ex-namorado que estava de passagem pela cidade mas não o convidou para ficar para a festinha quando terminaram. Agora estava conversando com Vinícius e bebendo sua décima primeira lata. Vinícius estava na décima quarta.


fevereiro 27, 2008

Mariana abriu a janela do seu quarto e ficou olhando aqueles prédios altos recortados contra um céu cinza enquanto fumava um cigarro escondida dos pais. Nunca fumava em casa, mas estava muito excitada com a idéia de Helena estar na cidade. Mariana e Helena não se viam desde quando, acabado o colégio, há cinco anos, Helena se mudou para a Europa. Há algumas semanas soube que a amiga tinha voltado, mais nada. Só hoje viu a mensagem de que ela ligara ontem e retornou a ligação mas foi inútil: o celular estava desligado. Começara a chover lá fora e Mariana não quis se preocupar muito com isso, afinal era sexta-feira. Depois de ficar um tempo deitada encarando o teto, pegou o telefone e ligou para Renan convidando ele e Vinícius para tomar uma cerveja no centro.

fevereiro 23, 2008

U acendeu um cigarro e foi embora bem cedo, enquanto o DJ tocava Kate Nash e Helena, recém-chegada à rodoviária, telefonava inutilmente para Mariana.

fevereiro 19, 2008

Mariana conheceu Vinícius e Renan na porta de uma balada qualquer. Eram quase quatro horas da manhã e os três estavam extremamente drogados. Vinícius, mais alto, logo chamou a atenção da garota, que demorou um pouco mais para notar o seu companheiro. Dias depois, quando se reconheceram em uma outra festa, nenhum deles foi capaz de reconstruir a conversa que os aproximou, ou que os manteve juntos por boa parte do resto de noite. A primeira lembrança comum que localizaram – se não verdadeira, um delírio coletivo – foi a de Renan e Vinícius bebendo vodka pura e explicando para Mariana uma teoria maluca – embora verossímil – sobre a semiótica do sexo na balada. Vinícius desenvolvera a teoria com Fábio, um colega seu de faculdade. Mariana, de calça jeans (justa) e regata branca (justíssima) dançava incansável entre Vinícius e Renan, concordando com os postulados, os três alheios à balada medíocre em que estavam. Outra lembrança partilhada pelo trio foi a de serem expulsos de um banheiro onde pretendiam cheirar cocaína junto de um aleatório qualquer. De volta à pista, contentaram-se com garrafas verdes de Heineken e baforadas de clorofórmio puro, que multiplicava inúmeras vezes as luzes e as batidas da música da pista de dança em uma sobreposição insana de sentidos e que queimava a pele quando a mira não acertava apenas a manga da camiseta.

fevereiro 12, 2008

Se Mariana alguma vez amou outra garota, se pensou em realmente virar lésbica, foi no tempo de colégio, quando namorou Helena. Todas as outras meninas com quem saiu foram meras brincadeiras. Ainda mais para U, pouco ou quase nada dada a romances.
A música que dançava no momento exato em que encontrou Helena, U não sabe. Naquela hora, sabia poucas coisas além de que estava dançando alguma música da qual não se lembra. Não sabia como chegara à pista, com quem, onde estivera, o que usara. Mas é claro que tudo isso pôde saber hoje, reconstituindo a noite a partir de relatos tão entorpecidos quanto suas próprias lembranças. A música exata daquele reencontro é que nunca recuperou. Ficou um gosto de incompleto.

fevereiro 11, 2008

U às vezes gostava de ser Mariana. Mariana, quase sempre de ser vadia. Mas nem sempre que U agia como vadia estava sendo Mariana. U, às vezes, era só U, e desprezava todo o resto.