envenenam carros da década de 50.
me falaram toca psychobilly lá, mas era mentira.
tocava marvin gaye.
Helena reclamou para U que Mariana estava preocupada demais em transar com ela. U não prestou atenção, tonta pela mistura de drogas e reencontros inesperados: as palavras de Helena eram apenas desculpas para se aproximar ainda mais. Também não prestou atenção quando Helena contou que Mariana não mudara, que Mariana queria que as coisas funcionassem como há cinco anos, que Mariana estava obcecada. U, se por acaso tivesse processado a sentença, discordaria. Helena é que não sabia que U e Mariana tinham se tornado melhores amigas nesses últimos anos – e isso já era uma grande mudança. Mas U não processou: estava preocupada demais em transar com Helena. Deu um passo à frente e sem dizer uma única palavra beijou-a em meio a um sorriso. U, às vezes, gostava de ser Mariana.
Mariana seguiu Helena, comportada, até o lado de fora da lanchonete e sem dizer uma única palavra tentou beija-la, mas Helena apenas sorriu e Mariana ficou se sentindo traída e estúpida enquanto Helena sorria aquele sorriso de sempre, grande e feliz, que dizia hold on e contava alguma amenidade sobre as festas de Londres ou os motéis de Berlim que Mariana fingia ouvir enquanto mexia nas pulseiras de prata olhando para o nada pensando que bosta e cadê a U? e o que mais eu vou ter que fazer para levar essa garota pra cama? enquanto Helena apenas sorria e falava sobre nada pensando que talvez não devesse ter saído sozinha com Mariana.
Mariana conheceu Vinícius e Renan na porta de uma balada qualquer. Eram quase quatro horas da manhã e os três estavam extremamente drogados. Vinícius, mais alto, logo chamou a atenção da garota, que demorou um pouco mais para notar o seu companheiro. Dias depois, quando se reconheceram em uma outra festa, nenhum deles foi capaz de reconstruir a conversa que os aproximou, ou que os manteve juntos por boa parte do resto de noite. A primeira lembrança comum que localizaram – se não verdadeira, um delírio coletivo – foi a de Renan e Vinícius bebendo vodka pura e explicando para Mariana uma teoria maluca – embora verossímil – sobre a semiótica do sexo na balada. Vinícius desenvolvera a teoria com Fábio, um colega seu de faculdade. Mariana, de calça jeans (justa) e regata branca (justíssima) dançava incansável entre Vinícius e Renan, concordando com os postulados, os três alheios à balada medíocre em que estavam. Outra lembrança partilhada pelo trio foi a de serem expulsos de um banheiro onde pretendiam cheirar cocaína junto de um aleatório qualquer. De volta à pista, contentaram-se com garrafas verdes de Heineken e baforadas de clorofórmio puro, que multiplicava inúmeras vezes as luzes e as batidas da música da pista de dança em uma sobreposição insana de sentidos e que queimava a pele quando a mira não acertava apenas a manga da camiseta.