Mariana seguiu Helena, comportada, até o lado de fora da lanchonete e sem dizer uma única palavra tentou beija-la, mas Helena apenas sorriu e Mariana ficou se sentindo traída e estúpida enquanto Helena sorria aquele sorriso de sempre, grande e feliz, que dizia hold on e contava alguma amenidade sobre as festas de Londres ou os motéis de Berlim que Mariana fingia ouvir enquanto mexia nas pulseiras de prata olhando para o nada pensando que bosta e cadê a U? e o que mais eu vou ter que fazer para levar essa garota pra cama? enquanto Helena apenas sorria e falava sobre nada pensando que talvez não devesse ter saído sozinha com Mariana.
maio 22, 2008
abril 17, 2008
A máquina do mundo
Perdi mais quinze músicas: fiquei cinqüenta e dois minutos ouvindo crystal castles e fugazi com o audioscrobbler DESLIGADO e nada foi para o meu perfil no last.fm ou sequer ficou guardado em cache: all lost em alguma ilha sem conexões entre meu computador e a internet. Liguei o plug-in desesperado e comecei a ouvir tudo de novo, over and over and over, para ter certeza de que aquelas músicas existiriam no meu futuro. Mas poderia estar ouvindo outra coisa, se não fosse.
O americano Anthony Volodkin que uma vez escreveu: se eu escutei uma música e não deu scrooble, eu realmente a ouvi?. Sou adepto da teoria que não deu scrobble, não exisitiu. Anthony também deve ser, tanto que criou um plug-in de scrobbler para seu site, o hype machine - que é um agregador de blogs atualizado vertiginosamente com mp3s, organizando um fluxo disperso. Super-appeal de coisas über-novas e mesmo assim dava dó passar muito tempo lá. Mas agora que dá para fazer o bendito scrobble, ninguém mais precisa perder pedaços da vida.
O que rola perder por lá, se bobear, é informação. Um cochilo mínimo e você deixa de ouvir AGORA duas músicas que dali a quatro horas vão ser a GRANDE BADALAÇÃO do momento. Mas na real também não passou, por que ainda está lá para ser encontrado, néam? O hype machine abole a noção de tempo que permaneceu do milênio passado: o presente, no site, é o futuro chegando a cada segundo, se devorando em passado.
É como diz uma amiga: a mensagem do mundo é: NÃO DURMA.
And keep listening.
abril 15, 2008
love
wish i could be a very very tinny label
right in the middle of your tag cloud
among scooters and vacations and falls
deeply hidden from everyone
hate
queria ser uma etiqueta mínima
na sua nuvem de tags / uma etiqueta
bem bem pequenininha entre outonos férias
e patinetes
luuuv
wish i could be a proud tag
be gigantic in your cloud
well, fuck
small the scooters small the weekends small
the falls
hte
queria ser uma tag mag-
nânima
se fazendo ordem mas construída anônima
queria ser patinetes ser outonos
ser fins de semana
março 07, 2008
U se virou. Os cabelos bagunçados cobriam-lhe o rosto. Renan tentou se levantar, mas a cabeça doia muito. Em vez disso, aproximou-se de U, que abriu os olhos repentinamente e sorriu. Como você veio parar aqui?, ela perguntou. Renan sorriu: não faço idéia.
fevereiro 29, 2008
fevereiro 27, 2008
fevereiro 23, 2008
fevereiro 19, 2008
Mariana conheceu Vinícius e Renan na porta de uma balada qualquer. Eram quase quatro horas da manhã e os três estavam extremamente drogados. Vinícius, mais alto, logo chamou a atenção da garota, que demorou um pouco mais para notar o seu companheiro. Dias depois, quando se reconheceram em uma outra festa, nenhum deles foi capaz de reconstruir a conversa que os aproximou, ou que os manteve juntos por boa parte do resto de noite. A primeira lembrança comum que localizaram – se não verdadeira, um delírio coletivo – foi a de Renan e Vinícius bebendo vodka pura e explicando para Mariana uma teoria maluca – embora verossímil – sobre a semiótica do sexo na balada. Vinícius desenvolvera a teoria com Fábio, um colega seu de faculdade. Mariana, de calça jeans (justa) e regata branca (justíssima) dançava incansável entre Vinícius e Renan, concordando com os postulados, os três alheios à balada medíocre em que estavam. Outra lembrança partilhada pelo trio foi a de serem expulsos de um banheiro onde pretendiam cheirar cocaína junto de um aleatório qualquer. De volta à pista, contentaram-se com garrafas verdes de Heineken e baforadas de clorofórmio puro, que multiplicava inúmeras vezes as luzes e as batidas da música da pista de dança em uma sobreposição insana de sentidos e que queimava a pele quando a mira não acertava apenas a manga da camiseta.
fevereiro 12, 2008
fevereiro 11, 2008
fevereiro 02, 2008
U morava sozinha em um apartamento de dois quartos sala e cozinha. A fender preta em seu quarto era só uma peça decorativa que acumulava poeira. A mesa de vidro na sala, não. U gostava de cheirar cocaína. Cheirava como se não houvesse amanhã. Transava como se não houvesse amanhã. E quando estava na pista, dançava até o último segundo possível, aproveitando os limites, exatamente como fazia com todo o resto.
Quando acordou naquele dia, com a cabeça doendo, o corpo pesado, a garganta seca, U não se lembrava exatamente como chegara em casa. Na geladeira não havia água gelada mas uma última carreira de pó ainda se exibia sobre a mesa de vidro. U, no fundo, não gostava de cheirar pó. Era muito óbvio. Mesmo assim, cheirou mais uma vez, só pelo esporte.
janeiro 09, 2008
novembro 29, 2007
Só iria se fosse para cair de bêbada, deixou bem claro Mariana antes de tirar a camiseta branca com que passara o dia e se olhar no espelho só de calcinha e sutiã para escolher uma roupa que servisse aos seus propósitos de cair de bêbada, como deixara bem claro ser sua intenção antes de tirar o sutiã preto sem costura e a calcinha branca com detalhes em azul que não combinava com nada e se olhar no espelho pelada para escolher uma roupa que fosse cool sem ser tão cool assim afinal de contas o que queria era cair de bêbada, como, acha, já tinha ficado óbvio quando repetiu a sentença pela terceira vez antes de tirar os prendedores de cabelo e as pulseiras de prata que não fariam sentido com a roupa que tinha em mente enquanto ainda se olhava no espelho e pensava, deus, eu sou tão bonita.
crooked rain, crooked rain
se esconder da chuva
torrencial que nos agrediria no futuro
próximo
se só o que tínhamos no agora
era aquela garoa curva e um passado recente
que julgaríamos esquecido
quando a tempestade enfim nos atingisse
com gotas maiores que riscos
de caneta bic
e encharcasse nossos tênis da moda
