março 07, 2008

Mais tarde, quando acordou na casa de U, Renan não sabia dizer como chegara lá, nem se algo acontecera. U dormia ao seu lado na cama, envolta em lençóis branquíssimos, como sua própria pele, delineando o contorno sutil de seu corpo. Renan estava de cueca no outro lado, mas eles não se tocavam.

U se virou. Os cabelos bagunçados cobriam-lhe o rosto. Renan tentou se levantar, mas a cabeça doia muito. Em vez disso, aproximou-se de U, que abriu os olhos repentinamente e sorriu. Como você veio parar aqui?, ela perguntou. Renan sorriu: não faço idéia.

fevereiro 29, 2008

U e Camila transaram pela primeira vez no banheiro do apartamento de U. Na sala, as outras pessoas ouviam Justin Timberlake e bebiam latas de Kaiser compradras a 95 centavos cada no supermercado a duas quadras e meia dali. U prefiriria ter levado Camila até seu quarto, mas entrar no banheiro e se trancar com ela sem avisar foi delicioso. No quarto de visitas, mais cedo, Mariana transara com um ex-namorado que estava de passagem pela cidade mas não o convidou para ficar para a festinha quando terminaram. Agora estava conversando com Vinícius e bebendo sua décima primeira lata. Vinícius estava na décima quarta.


fevereiro 27, 2008

Mariana abriu a janela do seu quarto e ficou olhando aqueles prédios altos recortados contra um céu cinza enquanto fumava um cigarro escondida dos pais. Nunca fumava em casa, mas estava muito excitada com a idéia de Helena estar na cidade. Mariana e Helena não se viam desde quando, acabado o colégio, há cinco anos, Helena se mudou para a Europa. Há algumas semanas soube que a amiga tinha voltado, mais nada. Só hoje viu a mensagem de que ela ligara ontem e retornou a ligação mas foi inútil: o celular estava desligado. Começara a chover lá fora e Mariana não quis se preocupar muito com isso, afinal era sexta-feira. Depois de ficar um tempo deitada encarando o teto, pegou o telefone e ligou para Renan convidando ele e Vinícius para tomar uma cerveja no centro.

fevereiro 23, 2008

U acendeu um cigarro e foi embora bem cedo, enquanto o DJ tocava Kate Nash e Helena, recém-chegada à rodoviária, telefonava inutilmente para Mariana.

fevereiro 19, 2008

Mariana conheceu Vinícius e Renan na porta de uma balada qualquer. Eram quase quatro horas da manhã e os três estavam extremamente drogados. Vinícius, mais alto, logo chamou a atenção da garota, que demorou um pouco mais para notar o seu companheiro. Dias depois, quando se reconheceram em uma outra festa, nenhum deles foi capaz de reconstruir a conversa que os aproximou, ou que os manteve juntos por boa parte do resto de noite. A primeira lembrança comum que localizaram – se não verdadeira, um delírio coletivo – foi a de Renan e Vinícius bebendo vodka pura e explicando para Mariana uma teoria maluca – embora verossímil – sobre a semiótica do sexo na balada. Vinícius desenvolvera a teoria com Fábio, um colega seu de faculdade. Mariana, de calça jeans (justa) e regata branca (justíssima) dançava incansável entre Vinícius e Renan, concordando com os postulados, os três alheios à balada medíocre em que estavam. Outra lembrança partilhada pelo trio foi a de serem expulsos de um banheiro onde pretendiam cheirar cocaína junto de um aleatório qualquer. De volta à pista, contentaram-se com garrafas verdes de Heineken e baforadas de clorofórmio puro, que multiplicava inúmeras vezes as luzes e as batidas da música da pista de dança em uma sobreposição insana de sentidos e que queimava a pele quando a mira não acertava apenas a manga da camiseta.

fevereiro 12, 2008

Se Mariana alguma vez amou outra garota, se pensou em realmente virar lésbica, foi no tempo de colégio, quando namorou Helena. Todas as outras meninas com quem saiu foram meras brincadeiras. Ainda mais para U, pouco ou quase nada dada a romances.
A música que dançava no momento exato em que encontrou Helena, U não sabe. Naquela hora, sabia poucas coisas além de que estava dançando alguma música da qual não se lembra. Não sabia como chegara à pista, com quem, onde estivera, o que usara. Mas é claro que tudo isso pôde saber hoje, reconstituindo a noite a partir de relatos tão entorpecidos quanto suas próprias lembranças. A música exata daquele reencontro é que nunca recuperou. Ficou um gosto de incompleto.

fevereiro 11, 2008

U às vezes gostava de ser Mariana. Mariana, quase sempre de ser vadia. Mas nem sempre que U agia como vadia estava sendo Mariana. U, às vezes, era só U, e desprezava todo o resto.

fevereiro 02, 2008

U morava sozinha em um apartamento de dois quartos sala e cozinha. A fender preta em seu quarto era só uma peça decorativa que acumulava poeira. A mesa de vidro na sala, não. U gostava de cheirar cocaína. Cheirava como se não houvesse amanhã. Transava como se não houvesse amanhã. E quando estava na pista, dançava até o último segundo possível, aproveitando os limites, exatamente como fazia com todo o resto.

Quando acordou naquele dia, com a cabeça doendo, o corpo pesado, a garganta seca, U não se lembrava exatamente como chegara em casa. Na geladeira não havia água gelada mas uma última carreira de pó ainda se exibia sobre a mesa de vidro. U, no fundo, não gostava de cheirar pó. Era muito óbvio. Mesmo assim, cheirou mais uma vez, só pelo esporte.

janeiro 09, 2008

A bolsa Gucci entre as pernas semi-abertas escondia do motorista a calcinha preta enquanto U se maquiava recostada no banco traseiro do táxi. Seu vestido cereja cobria apenas metade das suas coxas.

novembro 29, 2007

Só iria se fosse para cair de bêbada, deixou bem claro Mariana antes de tirar a camiseta branca com que passara o dia e se olhar no espelho só de calcinha e sutiã para escolher uma roupa que servisse aos seus propósitos de cair de bêbada, como deixara bem claro ser sua intenção antes de tirar o sutiã preto sem costura e a calcinha branca com detalhes em azul que não combinava com nada e se olhar no espelho pelada para escolher uma roupa que fosse cool sem ser tão cool assim afinal de contas o que queria era cair de bêbada, como, acha, já tinha ficado óbvio quando repetiu a sentença pela terceira vez antes de tirar os prendedores de cabelo e as pulseiras de prata que não fariam sentido com a roupa que tinha em mente enquanto ainda se olhava no espelho e pensava, deus, eu sou tão bonita.

crooked rain, crooked rain

não me parecia importante
se esconder da chuva
torrencial que nos agrediria no futuro
próximo
se só o que tínhamos no agora
era aquela garoa curva e um passado recente
que julgaríamos esquecido
quando a tempestade enfim nos atingisse
com gotas maiores que riscos
de caneta bic
e encharcasse nossos tênis da moda

outubro 11, 2007

oh, my.

música e cultura pop em mobrau.wordpress.com




e livrinho de poesia em breve.

outubro 03, 2007

shut the door

o som vai ficando mais grave
MAIS GRAVE
a medida que vamos indo para mais longe (mais longe) e ficando
mais distraídos
                  e a sua respiração         é isso?
é a sua respiração?          então você diz    SIM
e a noite se desfaz em luzes apagadas

outubro 02, 2007

2

Aqueles corredores brancos pareciam intermináveis, infinitos; pareciam encadear-se a cada curva, a cada giro, a outros corredores brancos que também pareciam intermináveis e também pareciam – deviam – se encadear a outros corredores brancos sucessivamente encadeando-se a corredores brancos que, seqüência, pareciam se dobrar para dentro de si mesmos e pareciam o vórtice de uma convulsão branca de corredores brancos que acabaria sempre em uma implosão também branca da qual restariam como estilhaços apenas os degraus de uma escada cinza. De resto, eram apenas corredores brancos. Subindo pela escada, podia-se chegar aos armários de roupas, às salas de maquiagem ou ao estúdio de fotografia. Garotas altas e magras orbitavam nesse mundo, ignorando com seus desejos de estética e luxo o distúrbio branco das pálidas paredes dos corredores e ela, mais uma entre essas meninas. Alta, magra, loira, o nariz centrado no rosto. O que lhe faltava, porquanto, era sorte, que encontraria só alguns meses mais tarde e enfim sairia da pequena agência de paredes brancas para desfilar por uma maior e depois por outra, maior ainda. Os corredores brancos sempre foram um meio, nunca um fim. Mesmo a agência de modelos para qual irá é também um meio. E a outra. Tudo é meio. O fim é o luxo eterno.