julho 30, 2007

I

Do vão da porta da casa ela podia ver um jardim não muito grande cheio de rosas brancas [como sua pele] rosas vermelhas [como suas bochechas] rosas rosas [como sua calcinha] à sombra de uma árvore de jabuticabas pretas [como sua saia] e completamente maduras perto de um portão cor-de-tijolo [como seus cabelos] no fim de um tapete de grama verde [como seus olhos] ainda esbranquiçado pela geada. Além via a rua. A rua era o que existia de mais específico. Tinha quinze anos então e nada via de si mesma no pequeno jardim que a separava da rua, que era a única coisa que tentava entender. Nunca tentara entender o jardim. Passava as tardes na porta olhando para o rio de asfalto cinza-escuro que surgia em uma curva descendo por entre outras casas e pequenos prédios, e se afastava subindo em linha reta por entre outras casas e outros pequenos prédios para servir de afluente a um outro rio de asfalto cinza-escuro que seguiria até outras ruas e a outras e a avenidas que acabariam levando em direção aos grandes prédios que se erguiam além da rua na direção do céu. A rua era específica, sabia de tanto analisá-la tarde após tarde: levaria, de uma forma ou de outra, ao centro da cidade e àqueles arranha-céus escuros de cortinas em tons pastéis. Já os conhecia. Não era isso o que mais lhe fascinava na rua. Não era o caminho; não sabia bem o que era. Pela manhã, ia para a escola no centro, perto dos prédios altos, e ia por essa rua, exatamente essa, e voltava pela mesma rua. Não podia ser o caminho que lhe fascinava, embora fosse essa a primeira especificidade que notara: a rua a levaria ao centro sempre que quisesse. A rua, na verdade, a guiaria por calçadas e pontos de ônibus para qualquer lugar, mas isso a tornava difusa, não específica, e aos quinze anos, parada na porta de casa depois do almoço, o que importava mais eram as qualidades tangíveis, não um conceito de rua, mas a idéia, concreta, de que a rua tinha por fim específico atingir o centro. O centro podia ser Roma, embora essa analogia escapasse ao universo referencial da garota de quinze anos que passava as tardes assistindo a rua. O centro era o centro. E nem era isso que mais lhe fascinava na especificidade das ruas – pois parecia certo que todas eram específicas. O que lhe fascinava ao certo, não sabia. Talvez fosse o fato de as ruas sempre terem início e fim e sempre estarem interligadas a outras ruas. Sempre. Isso ela pensava, não assim, com essas palavras, mas pensava que as ruas sempre levam a algum lugar, e sempre chegam lá, e esse lugar, que no seu mundo se resume ao centro de prédios altos, só é acessível por que as ruas – as ruelas, as travessas, as avenidas – se interligam por toda a cidade, se interligam até que nada resta a não ser chegar ao centro. Ou deixar a cidade. Nunca deixara a cidade a não ser para ir à praia, por uma rodovia grande e cinza de várias pistas da qual saiam como pequeninos galhos estradinhas de terra batida e pedras de saibro que ela nunca soube para onde iam a não ser pela certeza de que deveriam ir para algum lugar, como todas as ruas, embora não houvesse prédios aonde chegar, mas sabia que a grande rodovia cinza, embora não os visse, levava a outros prédios diferentes daqueles que via todos os dias, primeiro em uma outra cidade, depois em uma outra – bem pequena essa – e só depois até os prédios e as casas da praia. Aos doze anos inferira por indução, embora não soubesse o que era indução, que todas as estradas que tomasse levariam a outros centros e prédios altos em outras cidades e que nessas cidades sempre existiriam números incontáveis de ruas se interconectando em uma rede cujo centro sempre seria o centro, de camelôs e prédios altos. Concluira também, de forma que julgou genial, que não existia utilidade para uma rua que não se ligasse a outras, ou no mínimo a uma outra, ruas. Isso, e as palavras agora são dela, seria como criar um lugar inacessível. Desnecessário. Escreveu a sentença em um caderninho de capa cinza-escuro que deixava na terceira gaveta da escrivaninha marrom que ficava em um dos cantos do seu quarto. Escreveu Uma rua, uma via que não se ligue a nenhuma outra rua, que apenas ligue dois pontos, é uma estrada inútil. Criar um lugar assim seria como criar um lugar inacessível. Desnecessário. Tal aberração, se existir, não deveria ser permitida.

julho 24, 2007

Metamorfoses

Voltara lá doze anos depois e tudo ainda estava do jeito que estivera naquela tarde há doze anos quando trancou a porta e deixou tudo como estava sem saber que voltaria doze anos depois daquela tarde e que ainda assim tudo estaria da mesma maneira que estivera antes – as coisas exatamente nos lugares em que deixara as coisas. Não se importava com as coisas, de qualquer forma, não lhe importava se haviam ou não envelhecido nesses anos, não lhe importava as coisas, os lugares das coisas. Voltara por uma delas, mas apenas por uma delas. Não teria voltado por qualquer outra coisa que fosse, voltar, nunca nesses doze anos imaginou cruzar mais uma vez aquele portão branco, agora descascado e enferrujado, mas ainda o mesmo portão branco no mesmo muro na mesma rua com os mesmos buracos na calçada. O mesmo portão branco, se abrindo para o mesmo jardim, para a mesma casa no fim do caminho de pedras com as mesmas janelas altas e as mesmas cortinas escuras que esquecera por doze anos. Antes mesmo de avistar a casa no fim daquela rua sem saída que não via há doze anos, antes mesmo de avistar a casa sabia que tudo estaria da mesma forma que deixara. O ar continuava o mesmo. Respirava o mesmo ar que respirara por dezessete anos contínuos antes da tarde em que, trancada a porta, caminhou pelas pedras brancas do jardim, sem pressa, até o portão branco que dava para rua e respirou uma última vez aquele ar com cheiro poeira e flores e livros e grama recém cortada sem saber que o respiraria novamente dali a doze anos, ainda o mesmo ar – só que mais pesado, mais lento, mais pestilento. Tudo parecia ter ficado mais pesado e mais lento desde aquela tarde sem que para isso precisassem mudar um único milímetro de sua existência. Não era só sobre os objetos da casa que se abatera aquela velhice estática e precoce, notou-a primeiro nas árvores, depois na calçada e nas outras casas antes da sua, depois no vento, no céu, na montanha distante que sempre desejara subir. Só então chegou ao portão, o mesmo portão branco de sempre, como se apenas tivesse saído por algumas horas e agora que estava de volta fosse preciso destrancar a porta que trancara por força do hábito, mesmo sabendo que não havia perigo de assaltos naquela rua sem saída, e entraria na casa como se tivesse apenas saído por algumas horas e de alguma forma tudo tivesse envelhecido doze anos em segundos sem que nada pudesse ser feito para parar o encanto e as plantas do jardim simplesmente sucumbissem ao peso da idade diante de seus olhos através das janelas de cortinas escuras. Ficou um bom tempo parado observando o velho jardim, onde as mesmas violetas de sempre jaziam sob as mesmas rosas de sempre sob as mesmas dálias de sempre sob as mesmas begônias de sempre na mesma pilha de plantas mortas que sempre vira no canto da casa. Nunca o vira podando as plantas. Nunca. A pilha sempre estivera lá, mas nunca o vira podando as plantas, o monte simplesmente existia; aquele monte de plantas fora a primeira experiência estática de sua vida. O retorno à casa, a maior. Abriu a porta com a mesma chave que a trancara doze anos atrás. Acreditou, passando pela soleira, ser a única partícula dinâmica do universo estático daquela rua sem saída. A única. Podia imaginá-lo, o professor, sentado em sua poltrona vermelha no estúdio do sótão com a mesma arrogância calma com que sempre se sentara na poltrona vermelha do estúdio do sótão. Sabia que assim que subisse as escadas e chegasse ao alcance dele ele lhe perguntaria o que teria lhe perguntado naquela noite há doze anos quando não voltou para ouvir a pergunta; calmamente ele levantará os olhos do livro, um outro livro mas ainda o mesmo livro de sempre, grande e de capa preta, e com aquele tom frio de desprezo intelectual perguntará se terminei de ler as Metamorfoses de Ovídio, e eu responderei que não, como teria respondido há doze anos, e todas as coisas continuarão como estão, como foram, como essas coisas estão como estão que é o que foram. Pensou isso assim que, dentro da casa pela primeira vez em doze anos, viu o mesmo piano de cauda trancado, com a mesma partitura em branco sobre a tampa do teclado; a mesma poltrona alta em frente a televisão quebrada; o mesmo Rembrant falsificado na parede; mas só agora, com as coisas envelhecidas gritando aos seus olhos, percebeu que aquilo tudo nunca havia sido novo, nem a ruas, nem as árvores o canto dos pássaros o sol entrando pela janela na atmosfera abafada das cortinas escuras - tudo sempre fora velho e estático. Velho e estático, o contrário dele, que era novo, e mutável, e moderno e estava tão perto do mestre quanto não estivera nos últimos doze anos que podia senti-lo reprovar esse seu pensamento. Estavam perto agora, muito perto. Subiu direto as escadas, sem se preocupar em observar os outros cômodos da casa pois sabia que tudo estaria como sempre fora, parado e velho. Por isso não entrou no quarto em que vivera por dezessete anos antes daquela tarde há doze em que trancara a porta antes de sair para voltar apenas agora; nem procurou o que viera buscar, sabendo onde estaria. Sabia onde tudo estaria. Seguiu até o estúdio do sótão como fizera diversas vezes no passado, preparando-se para levar a bronca que inconscientemente esperou levar durante doze anos, a petulância de querer responder assim que ele levantar os seus olhos claros demais de algum livro que não, não terminei de ler Ovídio, nem em doze anos terminei de ler Ovídio, nem em mais doze terminarei. Subiu então pela mesma escada carcomida que lhe assustava para o mesmo buraco retangular que lhe assustava e que o levou ao mesmo recinto longo e escuro abarrotado de livros que nunca lera e nem nunca leria que sempre conheceu como estúdio do sótão, e no fim do estúdio do sótão, do mesmo estúdio do mesmo sótão, na mesma poltrona vermelha da cor de sangue em frente à mesma mesa baixa de madeira também vermelha, também escura, ele estava sentado sob a mesma luminária de sempre lendo um livro grosso de capa negra que parecia com todos os outros livros que o vira lendo, e parecia com todos os outros livros das prateleiras e com todos os outros livros grandes de capa escura do mundo. Ficou ali parado olhando e pensando que era agora que ele levantaria os olhos, aqueles olhos azuis demais, frios demais, e perguntaria aquilo que há doze minutos, anos, milênios, esperava que ele perguntasse acreditando que todo esse tempo ele também esperava ansioso o momento de perguntar. O movimento das coisas continuou estático por um tempo, mas dessa vez o próprio envelhecimento parara, e ele ficou ali parado, pensando é agora, é agora que ele levanta os olhos, pensando é agora que ele vai me perguntar com sua voz arrogante se terminei de ler o maldito livro de Pablo Ovidius em latim e eu vou dizer que não. Não. Ele só pensava, não parecia reparar em nada a sua volta, não reparou que o estúdio do sótão, o mesmo estúdio do mesmo sótão, parecia maior do que nunca, que as prateleiras pareciam existir em maior número, que havia caixas de novos livros antigos espalhadas pelo chão esperando a sua vez de serem abertas, lidas, e alocadas nas prateleiras vazias. Não reparava em nada, só ficava pensando é agora, é agora que ele levanta os olhos e me pergunta sobre o romano, mas ele só se mexia para arrumar os grandes óculos de aros finos quase invisíveis e, cadenciado, virar as páginas do livro grande de capa escura que estava lendo. E o mais novo só pensando é agora, é agora, mas não podia quebrar o silêncio, sabia que não devia falar. O mais velho virou a página uma, duas, três vezes, antes de marcar a quarta página virada com um cordão grande e vermelho e fechar o livro e se levantar e andar até a prateleira mais distante e colocar o livro em uma estante até então vazia e o outro já não pensando em mais nada enquanto o senhor voltava andando e se sentava novamente e olhava finalmente para o não-aprendiz que voltara doze anos depois de ter ido embora sem avisar acreditando que nada mudara. Ele, o senhor, não perguntou nada, apenas sorriu, e pela primeira vez pareceu que de tudo, da casa, da rua dos ninhos dos pássaros das folhas das árvores do piano de cauda das janelas das cortinas sujas dos móveis empoeirados das coisas inamovíveis, dele mesmo, pareceu que de tudo o que mais mudara fora aquele senhor sentado na poltrona vermelha sorrindo para ele com aqueles seus olhos claros demais. Ele, o senhor, não perguntou nada, apenas sorriu e depois falou. Mas não mencionou Ovídio. Acredito que sei o veio buscar, foi o que ele disse, apenas falou que acreditava saber o que o outro viera buscar. Não um livro, é claro, mas se ainda não notou, o que quer está no exato lugar em que deixou; como tudo, aliás. Você não mudou muito, mas não entendi por que subiu até aqui se só veio buscar uma coisa que é totalmente sua. E ele se levanta, anda até uma caixa das que estão espalhadas no chão, abre-a e pega um livro grande de capa escura, como todos os outros grandes livros de capa escura do mundo. Acho que gostaria desse se tivesse lido Ovídio há doze anos, de fato, gostaria. E andou até a prateleira antes vazia em que colocara o livro que estava antes lendo e colocou o segundo livro ao seu lado e voltou andando bem devagar. Os livros eram idênticos, escuros, grossos. O mais novo ainda parado sem ter dito nada, ainda pensando mas pensando em outras coisas, pensando que livro é esse, onde está a bronca, pensando vou pegar o que vim buscar e ir embora, pensando o que vim fazer aqui. As coisas já não pareciam as mesmas coisas, o estúdio do sótão não era mais o mesmo estúdio, mas um novo estúdio do sótão, inédito, os livros eram todos inéditos, as coisas se inclinavam em ângulos novos e inesperados, imprevisíveis, tortos. Só ele ainda era ele, ele se metamorfoseava perpetuamente, estaticamente, nele mesmo. Tudo a sua volta, o portão, a casa, a cortina, o Rembrant, o céu, a montanha que nunca subira, e ele olhando as coisas ainda da mesma forma como as olhava há doze anos, sem entender que se ele tivesse mudado as coisas, os pássaros, tudo teria mudado também e ele estava forçando as coisas a não mudarem na sua ânsia de enxergá-las estáticas e apenas mais pesadas, mais lentas. Ele estava mais pesado, mais lento e não as coisas que deixara há doze anos que apesar de terem ficado doze anos paradas no mesmo lugar em que as deixara mudaram mais do que ele que passou doze anos viajando bebendo sem aprender ler o livro que deveria ter lido e se transformando cada vez mais nele mesmo.

julho 22, 2007

may.be [coloured]

A parede da pista de dança não tinha cor - talvez fosse cinza, talvez branca, talvez de um azul bem claro, quase transparente. Também não tinha cor a pista, a idéia de pista. Talvez nem existisse. O que tinha cor era a dança. E a sua era roxo-fúria, violetaltivo, de uma matiz luxuriosa que me metia medo quando os passos eram rápidos e enérgicos. Os movimentos suaves, por sua vez, eram do tom cruel das lilases-de-abril. E talvez doesse mais - excitasse mais - quando você fumava lentamente. O filtro do seu cigarro era branco, como a sua blusa, que contrastava com seu cabelo vermelho-talvez-tingido meio opaco de tanta fumaça em volta. Num copo longo, bebia um drink negro de vodka café e pedrinhas de gelo. Talvez sua dança fosse verde, e não roxa. A idéia de dança. Talvez nem existisse.

julho 15, 2007

"would you love me like a sailor, who loves the seven seas?"

queria te amar
feito um corsário
um falsário
um pirata cego operando o astrolábio

queria te roubar o frescor dos lábios

julho 13, 2007

Karnak

De Karnak te trouxe apenas um arenque de araque e este livrinho de rimas assinado pelo arauto de Tot.

Sobre aquele harém que fomos em Tebas Hekatómpylos nos tempos do Alto Império, nada descobri. Acredito que a opulência o tenha falido.

Restaram poucas garrafas de áraque depois da proibição. Comprei todas que pude de um bando de árabes.

julho 07, 2007

perto do fim
você disse que não se importava mais
não mais
você disse:
não me importo mais - com todas as palavras
e eu não respondi nada

junho 12, 2007

primeira ode

no pára-brisa dos carros
parados
sal a gosto (fino,
não grosso) sal a rodo: profusão de neve-granulada

nada, porém, que estremeça
qualquer intumescência da madrugada,
nada. mas... que estremeça! - quem
se importa?
- são apenas grãos de sal
&
já nem venta: não venta - ninguém
espera que vente,
quem espera
que vente?

ninguém!: o gesto é demasiado humano
para que se acredite na transubstanciação

& é o pára-raios da antena de rádio
que cessa toda
possível estática (não a falta de vento):

o que eu queria mesmo, Lídia, era te dizer que a tempestade passou
que venci o vento (estou além
do vento
agora
&
a neve está quase intocada, quase) - a neve
mesmo que fantasia, mesmo que sal, mesmo que nada,
é inamovível dos
pára-brisas - inamovível! - nada
a estremece, nada

& do ventre da madrugada arrogante
o que resta
é um salpicar autômato que não me interessa
não me interessa -

a quem interessa?

não há sentido nisso
não há sentido em nenhum nível que não o humano

& mesmo assim ninguém se preocupa em cercar a idéia
ninguém se preocupa. quem
se preocupa? o conceito me escapa:
resta o concreto,
fim de um gesto muito mais plástico
que qualquer outro
alvoroço:

cessa o gesto do abandono a queda,
nunca o sopro.

maio 25, 2007

para encaixar: "...e escondeu o punhado de cânfora no tanque da sua Harley"

Jean-François, jaqueta de couro e óculos escuros, iniciou a narrativa (a meta-narrativa?) preocupado com cheiros: colocou, antes de tudo, um punhado de cânfora no tanque vazio da sua Harley. Um punhado qualquer, abstrato. Não sabia muito bem que forma teria tal punhado. Nem precisava: a palavra "cânfora" lhe fascinou mais pela sonoridade do que pelo sentido e embora não lembrasse exatamente de onde a vira (numa revista, talvez?), deliciava-lhe a musicalidade do vocábulo. Cânfora. Cânfora enchia a boca. Quanto às motocicletas, nunca lhe interessaram. Mesmo a jaqueta e os óculos não passavam de figuras de linguagem para introduzir o problema da gasolina, esse sim, específico.

Gasolina comum, dessas que se compra por litro. Jean-François, ele-mesmo, nunca dissertava abertamente sobre; não conseguia nem sequer escrever a palavra "gasolina" sem se sentir inquieto. Quando isso acontecia – e era comum que não conseguisse grafar o nome de coisas que o incomodavam –, recorria a um artifício literário: escrevia sobre escrever sobre. De seu próprio punho, jamais. Não eram poucos os vocábulos em que – fosse pelo sentido, pelo som de certos fonemas, ou por outra coisa qualquer – Jean-François encontrava impossibilidade de grafar. Preferia sempre – pós-moderno que era – fragmentar sua própria personalidade em micronarrativas descentralizadas do que cometer a injúria de colocar-se perante os problemas lingüísticos de seus pesadelos.

No caso da gasolina, não era o sentido que lhe importava, mas sim a sonoridade dos oito grafemas emparelhados: ao contrário de cânfora, gasolina lhe causava apreensão. Assustava-lhe a musicalidade do vocábulo, que remetia sinesteticamente ao cheiro do combustível. Gasolina, palavra, era toda odor; enchia o nariz. E é por isso que, embora não soubesse da forma que teria tal punhado, abriu uma nova página no editor de textos e escondeu o punhado de cânfora no tanque da sua Harley: para introduzir o assunto específico da gasolina por um contexto que escapasse do seu universo pessoal.

Não é que não gostasse do cheiro de gasolina. Muito pelo contrário, o odor lhe causava certo entorpecimento agradável, e era isso que o mais inquietava na palavra "gasolina": a conexão, por associações específicas, com o cheiro. Tinha medo de descobrir o quanto gostava. Por isso, no meta-relato, a cânfora como punhado de anti-gasolina. Por isso escondendo (inconscientemente liberando-se desse desgosto), por isso a Harley (que foge completo do seu mundo). Na sua condição afeiçoava-se muito mais aos jogos de linguagem do que à realidade.

maio 13, 2007

2005, dezembro

num primeiro momento
em meio ao teu riso
exteriorizo segredos
e sem ler o teu aviso
a tua imagem contemplo

mas depois de entendido
e extendido meu tédio
me abato ao contrário
teu todo contraio
e sem nada mais rio

* * *

terrorista

você pára por algum tempo
para ser admirada
eu corro por muito tempo
para ser esquecido
os mundos se acabam em caminhos
carinhos & vamos indo

então somos todos lembrados
pelo que não queríamos ter sido
no final do final de uma explosão
onde eu admiro teu esquecimento
não-indentificável, espalhado pelo chão.

maio 11, 2007

Reencontro romântico pós-Hollywoodiano

Sempre a achou fascinante, sempre a achou, com aquele seu jeito elíptico, indo e vindo nas memórias do tempo em que de longe, só de longe, observava o seu andar cadenciado; quando a observava flutuar por sobre as pessoas, aura cor-de-rosa de alguma divindade perdida que o fascinou durante toda a adolescência. Sempre a achou fascinante. Sempre. Aquele gosto que só ela deixava no ar quando passava; aquela cor sedutora que transpirava um hype prematuro. Sempre a achou fascinante, mas mesmo levando tudo isso em conta, naqueles tempos do colégio, nunca trocou mais do que meia dúzia de palavras forçadas com ela. Não se sentia à vontade. Era absurdo, ABSURDO! Passar mal exatamente ao lado da pessoa que mais desejava? Do brilho que mais queria? O brilho daquele estilo. Era isso que no fundo mais desejava: o brilho daquele estilo. Ela foi a pessoa mais cool que ele jamais conheceu, mesmo não a tendo conhecido; ele, por outro lado, naqueles tempos do segundo grau, era um nada – um nerd. Quase-opostos, mas não opostos; quase-iguais: havia uma solidão, uma triste existência naquela sala de aula, que os aproximava e isso o fascinava até hoje.

Por muito tempo idealizou um reencontro perfeito; idealizou a corte, o êxtase, o sonho. Imaginava ela absolutamente charmosa, usando um daqueles vestidinhos que ele tanto recordava e andando da mesma maneira que sempre andara: movimentos lentos e calculados, elegantes, perfeitos. E os cabelos! A vertiginosa cor rosa dos cabelos bem delineados em uma franja era uma das memórias mais vivas de toda a sua vida: um rosa extremo; AQUELE rosa. Imaginava ela ainda assim, como se congelada no tempo; seus sorrisos exatamente como se recordava naquele abril em que pela única vez abraçou-a, sem querer, por um acaso. Todo o frescor de quando ela ainda tinha os cabelos lilases, antes da paixão fulminante do rosa. Abril é o mais cruel dos meses.

Quanto a si mesmo, imaginava-se para o reencontro sendo a si mesmo, algo que não sabia o que era. Desatento ao tempo e às mudanças, ainda queria se entender como naquela época da adolescência quando sua vida era olhar a luz cor-de-rosa de seus sonhos. Sólido, acreditava que ela também não mudara. Mas era fumaça líquida que o ofuscava: imaginou personalidades mil, que, súbito, se metamorfoseavam em outros trejeitos, adequando-se ao seu presente estar. Só ele não percebia o quanto isso acompanhava suas próprias alterações e flutuações de ser. Sua própria identidade fragmentada fragmentava a musa sem se dar conta; a descentralização dos desejos concentrada em manter o desejo. Só o cabelo dela é que não mudava. Nunca.

Um dia, enfim, a encontrou. Foi em um porão; ele estava lá dançando embalado por alguma banda de novo rock; ela fumava a um canto. Cinematográfico. Quando os olhares se cruzaram, os olhos – incomodados – recusaram se reconhecer. Foi estranho. Ele, claro, como sempre a achara fascinante, distinguiu a elipse da sua vida antes. Ela demorou mais para entender. Por um leve segundo, a desconfiança; depois o descrédito. Sorriram. Poderiam ser pessoas quaisquer, desconhecidos que trocavam seu primeiro olhar. Muito especialmente para ele, entretanto, havia profundidade na ocasião. Fitou-a por um bom tempo, decepcionado, antes de ter coragem para se aproximar. Não havia o ansiado cabelo rosa, não havia a franja: madeixas escuras, quase bem-comportadas, é que emolduravam o rosto ainda belo da dama antes sonhada. De resto, era perfeita: as roupas; o gosto musical; os olhos verdes; o charme ao fumar lentamente. Ainda flutuava, é claro, mas não tinha mais a franja.

A garota, da sua parte, nunca imaginara um reencontro com ele; nunca nem pensara no assunto – ou sequer havia se lembrado daquela existência. Mas agora, interposta ao tiroteio, reconheceu o olhar faminto e ficou surpresa. É claro que se o tivesse imaginado não teria sido assim, tão perfeitamente convincente a um sonho. O ambiente era inegavelmente seu habitat: despertou questões extremas sobre quem teria exatamente sido no passado, sobre quem teria sido aquele garoto quieto que gostava de olhá-la. No físico e no estético havia drásticas mudanças: extremamente bem vestido, muito além das velhas e esdrúxulas roupas da adolescência, a própria postura corporal era mais confiante; toda a composição do agora, bem apreciada, exalava certo ar de autoridade, de macho existencialista. Sorriu, docemente curiosa.

Sempre a achara fascinante, e não foi a conversa naquele porão que mudou isso; e ela, que nunca ligara para ele, fascinou-se. Gostavam do mesmo universo de coisas – música, literatura, cinema, urbanidades, teorias – discordando agradavelmente em alguns pontos. O passado, se não houvesse existido, não mudaria o rumo da noite – se fossem completos desconhecidos poderiam ter tido exatamente as mesmas conversas. Mas o passado, existindo, passou a incomodar: ele não conseguia parar de pensar na franja, nem mesmo o rosa importava mais – só a franja. Uma obsessão crescente: aos poucos foi perdendo o interesse por todo o resto e só conseguiu se concentrar na não existência da franja, naquela não-franja. Isso não chegou, é claro, ao ponto de impedi-lo de beijá-la e nem ao ponto de impedi-lo de levá-la para casa, despi-la e consumar um desejo de anos; mas foi algo que o incomodou por toda a noite. A franja devastada. “Em que está pensando?” Pensa ela, ao olhar dele, e no dia seguinte vai embora às pressas; anda pelas ruas com o cabelo em desalinho. Agora são conhecidos mútuos, cada qual com um novo telefone na agenda do celular.

abril 23, 2007

Manual Prático de Sobrevivência Poética III

bater homero no liquidificador
até virar poundjoyceelliot's
juice

abril 13, 2007

milonga

  o vento que sopra        a milonga
  é o MESMO vento
          que sopra       as pessoas
& os chapéus

                    mas os chapéus NÃO SÃO LEVADOS
                 pelo mesmo vento
                   que sopra o vento
                          (vento já soprado

enquanto as pessoas dançavam milonga)

                            qual é o vento
                        que sopra o vento?

& na curva da estrada
     as pessoas bem-vestidas
     RESMUNGAM ao chapeleiro-vôo    'PORRA!'
                                 & a cartola es  ca   pa
                    num assovio

abril 11, 2007

out

você sorri enquanto lê ana cristina césar
distante
& a tudo que eu falo
responde SEMPRE
com monossílabos átonos interrogativos

nem um pouco discreta
inventa um diálogo de surdos
& vira a página

a tea for one total

abril 09, 2007

cleptomania rósea

o fulgor argentino
daquele par de brincos
causou-lhe tamanho furor
que suas faces de dama
(antes brancas como cocaína)
enrubesceram-se

março 26, 2007

poetricidade I

os ventos esféricos
SEMPRE PODEM           se quiserem
retornar
às especificidades urbanas
         das cidades          sempre podem
                                     os ventos sempre podem PODEM
DEVEM
                  e os doces cones férricos
                                            periféricos
                 aos becos periféricos
                 às modernidades periféricas
sempre
            esperam                        ESFERAM
                                                  podem           sempre
os dóceis ventos
ex tra tos FÉRICOS                  sempre
                                                 sopram