Lavínia deitou no sol; o corpo nu fremia, excitado. Gritava, sozinha nas pedras arredondas do rio veloz. Good day sunshine, meu velho amigo. Surgindo de alguma lembrança de poemas únicos, e primeiros, tenta pronunciar – entre um sorriso – o nome Imre; depois desiste dessas coisas tristes (destas palavras em branco) e mergulha nas águas diáfanas.
Com os olhos fechados deixa-se ficar deitada na correnteza que massageia seu branco corpo submerso; a cor vermelha dançando nas suas pálpebras. Então aperta os olhos até o cinza, e depois o preto; a barulho da água em repeat. Solta – vermelho lúdico – e aperta – cinza estático –; o som da cachoeira distante. Levanta-se – verde. O burburinho da água canta uma ode à sua nudez (à sua vagina).
agosto 31, 2006
agosto 27, 2006
Primeiro Poema
Não era meia-noite – como nunca foi meia-noite –, mas chovia; absurdamente chovia, a chuva fustigando a janela. Lavínia deu dois passos para fora de casa, e só; foi o que bastou para a chuva açoitar também seus olhos verdes e ela voltar para o quarto, sentar e copiar a epígrafe de Beckett em uma folha de papel sulfite A4 branco. Voltei então a casa e escrevi. Talvez ela tivesse, de outros tempos de colheita intelectual não concebidas, preso na garganta um poema sobre a chuva; ou talvez fosse só preguiça de tomar dois ônibus até o centro para ouvir a ladainha da irmã mais velha.
Abaixo da fala de Molloy, grafou com letras de forma a palavra chove, seguida de vários – cinco – pontos de exclamação; o braço, meio em piloto automático, transformou o último deles em um grande traço que rasgou toda a extensão vertical da folha; tinta azul se espalhando por vontade própria na imensidão retangular quase-branca. E de repente, no momento em que a caneta pára, Lavínia escreve, em minúsculas, o nome impronunciável de um escritor Húngaro; para depois, do círculo desenhado em volta daquele amontoado de consoantes, riscar uma flecha que corre até à epígrafe da página.
É então que a chuva entra também na casa. Sou triste. Chove pelos meus olhos. As lágrimas fustigam a página. E ela fica ali, chorando, pensando em alguma frase que pudesse salvar da não-existência aquela composição tola. Decide sair de casa. Nua. Sem roupas e sem personalidade, sem um eu; uma folha em branco sendo desintegrada pela tempestade; uma folha em branco sendo escrita de mentiras. Senta-se na beira do mar e fica olhando as pequenas luzes dos barcos balouçarem. Uma folha em branco, um poema sendo escrito pelo vento.
Abaixo da fala de Molloy, grafou com letras de forma a palavra chove, seguida de vários – cinco – pontos de exclamação; o braço, meio em piloto automático, transformou o último deles em um grande traço que rasgou toda a extensão vertical da folha; tinta azul se espalhando por vontade própria na imensidão retangular quase-branca. E de repente, no momento em que a caneta pára, Lavínia escreve, em minúsculas, o nome impronunciável de um escritor Húngaro; para depois, do círculo desenhado em volta daquele amontoado de consoantes, riscar uma flecha que corre até à epígrafe da página.
É então que a chuva entra também na casa. Sou triste. Chove pelos meus olhos. As lágrimas fustigam a página. E ela fica ali, chorando, pensando em alguma frase que pudesse salvar da não-existência aquela composição tola. Decide sair de casa. Nua. Sem roupas e sem personalidade, sem um eu; uma folha em branco sendo desintegrada pela tempestade; uma folha em branco sendo escrita de mentiras. Senta-se na beira do mar e fica olhando as pequenas luzes dos barcos balouçarem. Uma folha em branco, um poema sendo escrito pelo vento.
agosto 25, 2006
agosto 21, 2006
dois poemas
Tchocolatl
Dar dois ou três passos à direita
barras de chocolate no meio da tarde.
No Sofá
te faço
pela janela semi-aberta
um acorde de sol
nos cabelos
agosto 14, 2006
Os ventos é que me diziam:
- Se te desejo, bem sabes, corres.
Eu, pastor náufrago de estrelas.
E como um louco qualquer
chutando postes e jurando com sangue
por sobre assobios desafinados
afundei o navio e perdi as ovelhas.
Sem mais nada que me prendesse
corri para alcançar o perfume do teu sopro.
E quando pude sentí-lo, só por um segundo
por todos os lados as letras dos teus nomes
alinharam-se às loucuras do meus desejos.
Eros.
Éramos nós, nos campos
nus.
Eu, navegando em um barco de pólen
as velas de pó varando por um não-mar absoluto.
Um infinito oceano às avessas. E nas
mesas de café da manhã nós apressamos os danos
que a distância causaria. Qual ânsia essa nossa.
Os ventos é que me diziam:
- Toma-me o corpo. Toma-me o corpo!
Mas não havia corpo, como não havia barco.
E se havia vento, só o senti na face
como um beijo breve. E nada mais.
Não havia um pulsar que me ligasse à eternidade.
Mas alguns fios de ar me prendiam a você.
Não havia pulso que me ligasse à perfeição.
Que vela seria soprada? Que face, castigada?
Não havia uso que te desligasse do gozo.
- Se te desejo, bem sabes, corres.
Eu, pastor náufrago de estrelas.
E como um louco qualquer
chutando postes e jurando com sangue
por sobre assobios desafinados
afundei o navio e perdi as ovelhas.
Sem mais nada que me prendesse
corri para alcançar o perfume do teu sopro.
E quando pude sentí-lo, só por um segundo
por todos os lados as letras dos teus nomes
alinharam-se às loucuras do meus desejos.
Eros.
Éramos nós, nos campos
nus.
Eu, navegando em um barco de pólen
as velas de pó varando por um não-mar absoluto.
Um infinito oceano às avessas. E nas
mesas de café da manhã nós apressamos os danos
que a distância causaria. Qual ânsia essa nossa.
Os ventos é que me diziam:
- Toma-me o corpo. Toma-me o corpo!
Mas não havia corpo, como não havia barco.
E se havia vento, só o senti na face
como um beijo breve. E nada mais.
Não havia um pulsar que me ligasse à eternidade.
Mas alguns fios de ar me prendiam a você.
Não havia pulso que me ligasse à perfeição.
Que vela seria soprada? Que face, castigada?
Não havia uso que te desligasse do gozo.
agosto 10, 2006
drops poéticos para preencher um vazio
I
Me deixe ver
que melodias cantaram
esta manhã
os pássaros.
Repita comigo.
II
E te contar uma hitória
curta
que tenha um final feliz.
III
Você costumava
costurar à luz de velas
e quem dera
eu não estivesse só inventado
a situação.
Mas não foi bom imaginar?
IV
Pegar cenas de cinema
e reinterpretá-las
para as nossas conversas.
Jogar as coisas nas bolsas
e mandar lembranças.
V
Ser anti-sutil
com as palavras
- não medi-las.
Me deixe ver
que melodias cantaram
esta manhã
os pássaros.
Repita comigo.
II
E te contar uma hitória
curta
que tenha um final feliz.
III
Você costumava
costurar à luz de velas
e quem dera
eu não estivesse só inventado
a situação.
Mas não foi bom imaginar?
IV
Pegar cenas de cinema
e reinterpretá-las
para as nossas conversas.
Jogar as coisas nas bolsas
e mandar lembranças.
V
Ser anti-sutil
com as palavras
- não medi-las.
agosto 08, 2006
pequena crônica-conto de ensino médio
“Você está sentindo seus dentes?” – me perguntava o meu amigo enquanto batia com a ponta dos dedos nos incisivos.
“Óbvio, por quê?”.
“Eu não sinto os meus!”
E nós rimos. Estávamos sentados no pátio do colégio rindo alto; meio-dia e pouco, as pessoas – alunos do ensino médio, alunos das engenharias – passavam, desatentas, recém saídas de suas aulas.
Há pouco tivemos a última aula de física do último ano do ensino médio. O professor nos liberou meia hora
antes de bater o sinal; aproveitamos para comemorar.
Uma amiga passa e nos vê. “Vocês estão bêbados?” – pergunta.
Rimos mais.
A garrafa de conhaque ficou, vazia, na sarjeta da Avenida 7 de Setembro. Estava calor, ainda tinha cursinho à tarde; o Cícero tinha que voltar para Campo Largo. (Essa hora o Guilherme deveria estar chegando em casa – um pouco menos que nós.)
“Ah, vocês estão bêbados!”
“Só um pouco...” – respondi, como de costume.
Naquele dia eu ainda iria escrever uma redação com um lápis de pedreiro, abraçaria minha irmã várias vezes – esquecendo que já havia abraçado –; o Guilherme derrubaria batata frita em cima da sua mãe; o Cícero entraria no ônibus e chegaria sabe-se lá como em casa, só para desmaiar na sala.
E eu diria: “Definitivamente, conhaque é forte demais para certas pessoas.” E até hoje temos certo receio da bebida. E de perder os dentes.
“Óbvio, por quê?”.
“Eu não sinto os meus!”
E nós rimos. Estávamos sentados no pátio do colégio rindo alto; meio-dia e pouco, as pessoas – alunos do ensino médio, alunos das engenharias – passavam, desatentas, recém saídas de suas aulas.
Há pouco tivemos a última aula de física do último ano do ensino médio. O professor nos liberou meia hora
antes de bater o sinal; aproveitamos para comemorar.
Uma amiga passa e nos vê. “Vocês estão bêbados?” – pergunta.
Rimos mais.
A garrafa de conhaque ficou, vazia, na sarjeta da Avenida 7 de Setembro. Estava calor, ainda tinha cursinho à tarde; o Cícero tinha que voltar para Campo Largo. (Essa hora o Guilherme deveria estar chegando em casa – um pouco menos que nós.)
“Ah, vocês estão bêbados!”
“Só um pouco...” – respondi, como de costume.
Naquele dia eu ainda iria escrever uma redação com um lápis de pedreiro, abraçaria minha irmã várias vezes – esquecendo que já havia abraçado –; o Guilherme derrubaria batata frita em cima da sua mãe; o Cícero entraria no ônibus e chegaria sabe-se lá como em casa, só para desmaiar na sala.
E eu diria: “Definitivamente, conhaque é forte demais para certas pessoas.” E até hoje temos certo receio da bebida. E de perder os dentes.
agosto 07, 2006
Cinco Pequenos Trechos de Deitar - E um Sexto (Soneto)
I
De duas uma:
Ou invadimos a floresta
e deitamos no campo
de lises que lá se escondem
para que possamos
Ou ficamos aqui olhando o nada.
II
Pois de deitar
de deitar por muito tempo
de mãos dadas
passei a te olhar melhor.
III
Sobre ti
sobre a tua pele branca
eu deitaria míriades de toques
leves
e te deixarias voar
se eu pudesse.
Se eu pudesse
eu deitaria algumas
belezas desconhecidas
sobre o nosso deitar.
IV
Deitamos sobre o pôr-do-sol
cobertos de ventos
e juras de eternidades.
Deitamos sobre a noite
cobertos de nada
de nada
e gozas.
V
Cabe o deitar único.
Deitar sobre deitar
um sobre o outro.
Cabe o deitar úmido.
Línguas sobre tudo
línguas
devorar.
Cabe o deitar lúdico
o rolar
pelo campo de lises.
Cabe um deitar único.
VI
Deitar palavras sobre
teu corpo nu.
E sob a lua, cobertos
de versos, dançar ao canto
simples das águas.
Te olhar deitada.
Te desejar. Te querer.
Te sorrir. (Bem sabes o quanto
gosto de sorrir para ti.)
Saber-se talvez terra
mas ser água. Água.
Misturar-se atento ao rio
que desliza sem leito.
Tocar a imensidão de um deitar.
De duas uma:
Ou invadimos a floresta
e deitamos no campo
de lises que lá se escondem
para que possamos
Ou ficamos aqui olhando o nada.
II
Pois de deitar
de deitar por muito tempo
de mãos dadas
passei a te olhar melhor.
III
Sobre ti
sobre a tua pele branca
eu deitaria míriades de toques
leves
e te deixarias voar
se eu pudesse.
Se eu pudesse
eu deitaria algumas
belezas desconhecidas
sobre o nosso deitar.
IV
Deitamos sobre o pôr-do-sol
cobertos de ventos
e juras de eternidades.
Deitamos sobre a noite
cobertos de nada
de nada
e gozas.
V
Cabe o deitar único.
Deitar sobre deitar
um sobre o outro.
Cabe o deitar úmido.
Línguas sobre tudo
línguas
devorar.
Cabe o deitar lúdico
o rolar
pelo campo de lises.
Cabe um deitar único.
VI
Deitar palavras sobre
teu corpo nu.
E sob a lua, cobertos
de versos, dançar ao canto
simples das águas.
Te olhar deitada.
Te desejar. Te querer.
Te sorrir. (Bem sabes o quanto
gosto de sorrir para ti.)
Saber-se talvez terra
mas ser água. Água.
Misturar-se atento ao rio
que desliza sem leito.
Tocar a imensidão de um deitar.
agosto 05, 2006
Pássaro-Ângulo
I
Nasceste pássaro
no passado
e onde quer que voes
agora
continuas a ser pássaro.
Não tem medida
a tua profunidade
de ser pássaro.
E se caminhas pela grama
à cadência das nuvens,
canta baixinho
algumas melodias
de pássaro
para provar do esquecimento
do teu ninho.
II
Quando dos estilingues
não o acertaram uma pedrada
sequer, o pássaro passou
a desfilar em tudo
quando é canto ainda
mais garboroso de ser pássaro.
E por um momento absurdo
a pontaria torta da criança
que soltou a forquilha
e ficou segurando a pedra
pareceu genial.
Depois sangrou a boca.
III
Se não tinha
a lisergia
prolixa das borboletas
que habitam
paredes é porque
o pássaro sempre
foi reto.
O pássaro é reto
torto é o ângulo.
E se não tinha
cores brilhantes
cantos assonantes
ou rimas ricas
é porque ainda
não era um composto.
IV
Ficou leve o vôo
do pássaro-ângulo
sutilmente nos mostrando
o quão tortos
somos na hora de voar.
E como somos pobres
na hora de escrever.
Somos meros paçarinhos
e não éguas
ou borboletas.
Mas o pássaro-ângulo
ele sim
agudo e obtuso
leva as palavras
às nuvens rosas
de orgasmos cintilantes.
O verbo geme.
V
Um mergulho
nu
no nada.
O pássaro
vândalo
diz:
- É tarde.
E foge.
Eu digo: arde.
Te fode.
E mergulho
nu
no tudo.
VI
Ao meu redor
o pássaro canta
cheio de arestas
e some a cada
segundo que eu
procuro prestar
mais atenção.
O pássaro alça
a queda
em qualquer direção
circular
da manhã.
Levanto vôo.
Torto.
VII
E eu falaria de árvores
não houvesse os postes
e os joão de barros
e os fios de luz
e as andorinhas
e as praças
e as velinhas com pipoca
para as pombas.
Eu falaria em pássaros
não houvesse os ângulos.
Falaria em penas
não houvesse os cantos.
Eu atiraria pedras
não houvesse a certeza
de que erraria
o pássaro pela
inclinação do ângulo
de abertura do estilingue.
(Ou por querer errar mesmo.)
Atiraria pedras
não houvesse o medo
de esquecer de soltá-las
mais uma vez.
E o pássaro sorriria.
(Que de alguma maneira
eles devem sorrir.)
I
Nasceste pássaro
no passado
e onde quer que voes
agora
continuas a ser pássaro.
Não tem medida
a tua profunidade
de ser pássaro.
E se caminhas pela grama
à cadência das nuvens,
canta baixinho
algumas melodias
de pássaro
para provar do esquecimento
do teu ninho.
II
Quando dos estilingues
não o acertaram uma pedrada
sequer, o pássaro passou
a desfilar em tudo
quando é canto ainda
mais garboroso de ser pássaro.
E por um momento absurdo
a pontaria torta da criança
que soltou a forquilha
e ficou segurando a pedra
pareceu genial.
Depois sangrou a boca.
III
Se não tinha
a lisergia
prolixa das borboletas
que habitam
paredes é porque
o pássaro sempre
foi reto.
O pássaro é reto
torto é o ângulo.
E se não tinha
cores brilhantes
cantos assonantes
ou rimas ricas
é porque ainda
não era um composto.
IV
Ficou leve o vôo
do pássaro-ângulo
sutilmente nos mostrando
o quão tortos
somos na hora de voar.
E como somos pobres
na hora de escrever.
Somos meros paçarinhos
e não éguas
ou borboletas.
Mas o pássaro-ângulo
ele sim
agudo e obtuso
leva as palavras
às nuvens rosas
de orgasmos cintilantes.
O verbo geme.
V
Um mergulho
nu
no nada.
O pássaro
vândalo
diz:
- É tarde.
E foge.
Eu digo: arde.
Te fode.
E mergulho
nu
no tudo.
VI
Ao meu redor
o pássaro canta
cheio de arestas
e some a cada
segundo que eu
procuro prestar
mais atenção.
O pássaro alça
a queda
em qualquer direção
circular
da manhã.
Levanto vôo.
Torto.
VII
E eu falaria de árvores
não houvesse os postes
e os joão de barros
e os fios de luz
e as andorinhas
e as praças
e as velinhas com pipoca
para as pombas.
Eu falaria em pássaros
não houvesse os ângulos.
Falaria em penas
não houvesse os cantos.
Eu atiraria pedras
não houvesse a certeza
de que erraria
o pássaro pela
inclinação do ângulo
de abertura do estilingue.
(Ou por querer errar mesmo.)
Atiraria pedras
não houvesse o medo
de esquecer de soltá-las
mais uma vez.
E o pássaro sorriria.
(Que de alguma maneira
eles devem sorrir.)
julho 30, 2006
praça da espanha (bossa samba rock'n'roll curitibano)
talvez um café expresso
na praça da espanha
expresse a tamanha vontade
que tenho de lhe conhecer
num dia de frio bem frio
o vento é quem manda
dançar pela rua de tarde
até se aquecer
olhando o céu azul
sentando na praça ficar
cantando uma velha canção
sem ver o tempo passar
sem ver o tempo passar
sem ver o tempo passar
talvez um café expresso
na praça da espanha
expresse a tamanha vontade
que tenho de lhe conhecer
num dia de frio bem frio
o vento é quem manda
dançar pela rua deserta
até anoitecer
olhando o céu azul
sentando na praça ficar
cantando uma velha canção
sem ver o tempo passar
e quando um outro café
você quiser vir tomar
ouvindo aquela canção
vamos enfim nos beijar
na praça da espanha
expresse a tamanha vontade
que tenho de lhe conhecer
num dia de frio bem frio
o vento é quem manda
dançar pela rua de tarde
até se aquecer
olhando o céu azul
sentando na praça ficar
cantando uma velha canção
sem ver o tempo passar
sem ver o tempo passar
sem ver o tempo passar
talvez um café expresso
na praça da espanha
expresse a tamanha vontade
que tenho de lhe conhecer
num dia de frio bem frio
o vento é quem manda
dançar pela rua deserta
até anoitecer
olhando o céu azul
sentando na praça ficar
cantando uma velha canção
sem ver o tempo passar
e quando um outro café
você quiser vir tomar
ouvindo aquela canção
vamos enfim nos beijar
julho 28, 2006
Canção Desesperada do Errante
A poesia é, por via das dúvidas
uma canção incerta de melodias
improváveis. Te dedico, pois,
incertezas desesperadas. E se o universo
queda de um alcoolismo absorto e violento,
o meu verso se torna um pouco
menos verso quando renego o teu amor
aos poucos. Quando te entrego mazelas.
E eu podia te devolver o que dediquei
às outras donzelas na ausência do
teu reinado, mas de que me adiantariam
os chiados? E em um salão dourado
eu podia te pedir que ficasses. Te dizer
(te mentir) que era meia-noite, que chovia.
Te contar que chorávamos. Que por sofrer
escrevemos nas paredes treslouquices e atravessamos
anti-sutis os fossos revoltosos que cercavam
o palácio. Sabendo que poderia dizer não.
Sabendo sempre que poderia dizer não.
E disseram todos que eu não deveria ter voltado,
quando já por outros motivos
haviam dito que eu não voltaria. Olha-me
bem. Não sentes que o universo roda
como se ébrio tropeçasse em si mesmo?
Um universo em convulsão, como as imagens
daquelas tapeçarias que nunca teci. Não vês? Não sentes?
Quem eram elas? As virgens espumas
que te acompanhavam os cabelos? Quem eram?
Finges não me ver. Tuas mãos carregam flores.
As minhas, sangue. Tua língua carrega mel.
A minha, álcool e fel. O asco que agora te causo.
E me olharias, ao menos, se eu colocasse
fogo no palácio? E eu teria como te pôr fogo
mais um vez? Ou apenas te tirar do torpor
verde do verão com uma ode de incertezas?
Agora, cai pelo infinito a minha canção
desencantada que, nunca cantada, jamais
tocará tua boca. Erro, desesperado, no vazio.
uma canção incerta de melodias
improváveis. Te dedico, pois,
incertezas desesperadas. E se o universo
queda de um alcoolismo absorto e violento,
o meu verso se torna um pouco
menos verso quando renego o teu amor
aos poucos. Quando te entrego mazelas.
E eu podia te devolver o que dediquei
às outras donzelas na ausência do
teu reinado, mas de que me adiantariam
os chiados? E em um salão dourado
eu podia te pedir que ficasses. Te dizer
(te mentir) que era meia-noite, que chovia.
Te contar que chorávamos. Que por sofrer
escrevemos nas paredes treslouquices e atravessamos
anti-sutis os fossos revoltosos que cercavam
o palácio. Sabendo que poderia dizer não.
Sabendo sempre que poderia dizer não.
E disseram todos que eu não deveria ter voltado,
quando já por outros motivos
haviam dito que eu não voltaria. Olha-me
bem. Não sentes que o universo roda
como se ébrio tropeçasse em si mesmo?
Um universo em convulsão, como as imagens
daquelas tapeçarias que nunca teci. Não vês? Não sentes?
Quem eram elas? As virgens espumas
que te acompanhavam os cabelos? Quem eram?
Finges não me ver. Tuas mãos carregam flores.
As minhas, sangue. Tua língua carrega mel.
A minha, álcool e fel. O asco que agora te causo.
E me olharias, ao menos, se eu colocasse
fogo no palácio? E eu teria como te pôr fogo
mais um vez? Ou apenas te tirar do torpor
verde do verão com uma ode de incertezas?
Agora, cai pelo infinito a minha canção
desencantada que, nunca cantada, jamais
tocará tua boca. Erro, desesperado, no vazio.
julho 27, 2006
Manual Prático de Sobrevivência Poética I
Não confiar só nas palavras.
Elas são deliciosas mas vis.
Ter cuidado também ao dar confiança
exagerada às manhãs ou às madrugadas
- aos cafés, bentevis e sopas
(dependendo do gosto do poeta).
Confiar vez ou outra
em algum sentido oculto.
E vez ou outra confiar cegamente
nas palavras, que são tudo o que
nos restou do mundo.
Ter cuidado de estuprar poemas alheios
com certa periodicidade e violência lúbrica.
Não ter pudor de copiar poemas alheios
quando se mostrar necessário.
Deixar de escrever crônicas, contos
e matérias jornalísticas
para escrever uma poesia, por menor
que ela pulse. Deixar de escrever um poema
para ler um outro (ou escutar uma música).
Deixar de escutar uma música para dar um beijo,
que é uma outra maneira de escrever um poema.
Às vezes esquecer as palavras pois também
existem os silêncios. Outras, escrever
com disfunção de horário.
Ter uma hora certa para escrever
(como uma manhã de domingo)
se não deixar de escrever em manhãs chuvosas.
Ter uma idéia genial para um poema
enquanto anda na rua.
Não anotar e esquecer, que é mais legal
do que se tivesse escrito.
Ter uma idéia genial para um poema
enquanto toma banho.
Anotá-la no vidro do box com o dedo.
Derreter-se com certas palavras
ditas ou lidas em certos momentos
com precisão ciúrgica de poeta. Cuidar de se
apaixonar por essas palavras em especial.
Trocar correspôndencia (eletrônica, claro)
com alguma poeta muito mais experiente que você
para que ela aponte seus erros óbvios
como a falta de ritmo. E ainda poder ler
a obra poética inétida dela e emprestar muitos
livros da sua prateleira. Depois ouvir que um dia
você poderá, talvez, ser um grande poeta.
Quem sabe? Para isso servem os manuais.
Elas são deliciosas mas vis.
Ter cuidado também ao dar confiança
exagerada às manhãs ou às madrugadas
- aos cafés, bentevis e sopas
(dependendo do gosto do poeta).
Confiar vez ou outra
em algum sentido oculto.
E vez ou outra confiar cegamente
nas palavras, que são tudo o que
nos restou do mundo.
Ter cuidado de estuprar poemas alheios
com certa periodicidade e violência lúbrica.
Não ter pudor de copiar poemas alheios
quando se mostrar necessário.
Deixar de escrever crônicas, contos
e matérias jornalísticas
para escrever uma poesia, por menor
que ela pulse. Deixar de escrever um poema
para ler um outro (ou escutar uma música).
Deixar de escutar uma música para dar um beijo,
que é uma outra maneira de escrever um poema.
Às vezes esquecer as palavras pois também
existem os silêncios. Outras, escrever
com disfunção de horário.
Ter uma hora certa para escrever
(como uma manhã de domingo)
se não deixar de escrever em manhãs chuvosas.
Ter uma idéia genial para um poema
enquanto anda na rua.
Não anotar e esquecer, que é mais legal
do que se tivesse escrito.
Ter uma idéia genial para um poema
enquanto toma banho.
Anotá-la no vidro do box com o dedo.
Derreter-se com certas palavras
ditas ou lidas em certos momentos
com precisão ciúrgica de poeta. Cuidar de se
apaixonar por essas palavras em especial.
Trocar correspôndencia (eletrônica, claro)
com alguma poeta muito mais experiente que você
para que ela aponte seus erros óbvios
como a falta de ritmo. E ainda poder ler
a obra poética inétida dela e emprestar muitos
livros da sua prateleira. Depois ouvir que um dia
você poderá, talvez, ser um grande poeta.
Quem sabe? Para isso servem os manuais.
julho 25, 2006
Eu te poeto sóbrio.
Desperdiço-me
em outras palavras
que não as minhas.
Fragmento no tempo
o meu exasperar lúdico
e os relapsos dos meus efeitos.
Supero os relaxos
das nossas narrativas.
Eu te poeto sôfrego.
Despedaço-me
em outros livros
que não os meus.
Pesco pérolas poéticas
em rios que passam
assonantes. E podíamos
enlaçar as mãos agora?
Não podíamos?
Eu te poeto sonâmbulo.
Desfalco-me
em outros delírios
que não os meus.
Poderíamos pluralizar.
Poderíamos poetar. (Se enlaçássemos
as mãos.) Lembras os resvalos
que um dia nos derrubaram felizes
no rio? Inventa-os.
Eu te poeto sádico.
Despudico-me
de dar-te um beijo
quando tu menos esperas.
Soberbo, lúbrico, súbito.
Concateno desejos
sobre desejos para que
alcance a poesia e
um dia me descubra ar.
Eu te poeto sarcástico.
Desenvergonho-me
como bem sei que gostarias.
Numa tempestade
quando pudermos nos molhar
e sutilmente os ângulos
nos mostrarem que somos
tortos. Eu te poeto sinestético.
Órfico, erótico, sônico.
Eu te poeto, poeta, somático.
Desperdiço-me
em outras palavras
que não as minhas.
Fragmento no tempo
o meu exasperar lúdico
e os relapsos dos meus efeitos.
Supero os relaxos
das nossas narrativas.
Eu te poeto sôfrego.
Despedaço-me
em outros livros
que não os meus.
Pesco pérolas poéticas
em rios que passam
assonantes. E podíamos
enlaçar as mãos agora?
Não podíamos?
Eu te poeto sonâmbulo.
Desfalco-me
em outros delírios
que não os meus.
Poderíamos pluralizar.
Poderíamos poetar. (Se enlaçássemos
as mãos.) Lembras os resvalos
que um dia nos derrubaram felizes
no rio? Inventa-os.
Eu te poeto sádico.
Despudico-me
de dar-te um beijo
quando tu menos esperas.
Soberbo, lúbrico, súbito.
Concateno desejos
sobre desejos para que
alcance a poesia e
um dia me descubra ar.
Eu te poeto sarcástico.
Desenvergonho-me
como bem sei que gostarias.
Numa tempestade
quando pudermos nos molhar
e sutilmente os ângulos
nos mostrarem que somos
tortos. Eu te poeto sinestético.
Órfico, erótico, sônico.
Eu te poeto, poeta, somático.
julho 23, 2006
I
E que se explodam os singulares,
o que me importaria? Se eu tivesse
de alguma forma marés de palavras
e me invertesse em inamovível
perante a Lua, seria, antes,
uma lavra de desejos a ser consumida.
E o que me importaria se nos
perdêssemos e nos achássemos anos depois,
sôfregos de abraços, se de uma
maneira ou de outra, por um descaminho
inelutável, nos encontraríamos?
Seria doce, como seria, vestir-te de mim.
II
Há uma coisa de instrumental
em certas cercanias que me cobram.
Se te acredito perdida, é por
não tocares este sino que passas as tardes
olhando. Ou porque insistes em dizer
que vais partir, quando sei
que giras ao redor desta galáxia que criaste
para acampar nua e sem palavra nenhuma
deixas bem claro que não dará, nunca,
um passo sequer que te separe
dela. Porque então tentas me enganar?
Ou me pedes que sentado e casto
espere a tua abocanhada fria? Bem sabes
que o frio tem mais influências
sobre nossas marés do que a lua
e que a estrada que persegues é deserta.
Vazia como uma poesia de amor
escrita para nenhuma das musas amadas.
Como se explica esse teu absolutismo?
E que se explodam os singulares,
o que me importaria? Se eu tivesse
de alguma forma marés de palavras
e me invertesse em inamovível
perante a Lua, seria, antes,
uma lavra de desejos a ser consumida.
E o que me importaria se nos
perdêssemos e nos achássemos anos depois,
sôfregos de abraços, se de uma
maneira ou de outra, por um descaminho
inelutável, nos encontraríamos?
Seria doce, como seria, vestir-te de mim.
II
Há uma coisa de instrumental
em certas cercanias que me cobram.
Se te acredito perdida, é por
não tocares este sino que passas as tardes
olhando. Ou porque insistes em dizer
que vais partir, quando sei
que giras ao redor desta galáxia que criaste
para acampar nua e sem palavra nenhuma
deixas bem claro que não dará, nunca,
um passo sequer que te separe
dela. Porque então tentas me enganar?
Ou me pedes que sentado e casto
espere a tua abocanhada fria? Bem sabes
que o frio tem mais influências
sobre nossas marés do que a lua
e que a estrada que persegues é deserta.
Vazia como uma poesia de amor
escrita para nenhuma das musas amadas.
Como se explica esse teu absolutismo?
julho 21, 2006
Ventogações à Poesia
I
Só poderia desistir da poesia
- embora não acredite muito em poemas -
se depois de ler "O poeta inventa viagem,
retorno e morre de saudade"
eu comesse um punhado de cerejas
vermelhas e petit gateaus com sorvetes
de flocos e aí fosse dançar na chuva.
De outra forma, continuaria escrevendo.
II
Quando eu comecei a escrever
por causa de um poema do solda
que dizia "me entupi guarani"
(seria de cerejas?)
eu só queria mostar
como podia muito bem fazer aquilo.
Agora já me perco da simplicidade
de outros versos que um dia fiz.
Como seria tudo isso
(ou pelo menos a minha poesia)
se eu não tivesse descoberto
uma coisa chamada pós-modernismo?
III
Um dia eu escrevi um troço que
não fazia muito sentido
e por isso afirmei ser uma poesia.
Mostrei para minha professora
de português, e ela disse que
aquilo se chamava "concretismo".
Eu tinha 15 anos, foi meu primeiro
poema concreto sem saber o que
raios era o concretismo.
Não lembro muito bem dele.
Acho que era colorido e
tinha o formato da bandeira do brasil.
E todas as palavras acabavam com "mente".
Os irmãos campos que me perdoem
mas eu inventei o concretismo
no primeiro ano do ensino médio.
IV
Quando estudei as vanguardas européias
no terceiro ano do ensino médio
foi que comecei a gostar de coisas
supostamente sem sentido.
Daquela tempo data um movimento poético
chamado "pós neo futurismo"
do qual eu fui o único adepto.
Produzi pelo movimento dois manifestos
que se perderam nos anos.
Naquela época eu ainda não sabia
que o marinetti era fascista
e me dizia anarquista. Talvez pela
última meus poemas não eram tão sem
sentido quanto eu gostaria, ou quanto
são agora, que não tenho mais ideologias
para expor nos meus textos,
porque eu fazia isso, escrevia sobre liberdade,
diferente de outros poetas anarquistas
que, felizmente, escrevem sobre o amor.
Eu sempre acabo me lembrando do tzara
("sou a princípio contra os manifestos
assim como sou contra os princípios")
e sorrindo.
V
Eu acho que a poesia não é feita de poemas geniais
mas sim de versos absolutamente perfeitos.
Existem alguns poucos poemas completamente perfeitos
que devem ser lidos e relidos à exaustão
(como disse nelson: "há uns poucos livros totais...")
mas existem versos que valem por livros de poesia inteiros.
Eu tento, absurdamente em vão, compô-los.
Escrever um verso perfeito deve ser como ter um orgasmo eterno.
VI
Sempre recorrem à idade
da primeira publicação
ou à quantidade de livros publicados
para me provocar.
Há um escritor de 31 anos
que já publicou 8 livros
que tem sido uma imagem freqüente
nas provocações que uma
amiga poeta gosta de me fazer.
Ele tem um gato chamado kafka
e um romance que estou lendo e gostando.
Quando eu tiver 31 anos
e um cachorro chamado vila-matas
espero já ter publicado
ao menos um livro
do qual eu não goste.
VII
Fui muito feliz no dia
em que uma grande amiga me disse
que nunca havia dado muita bola
para a poesia, até me conhecer.
Me senti pela primeira vez
fazendo um bem à Literatura.
Ela, de qualquer forma,
fez um bem danado à minha.
VIII
Agora o que nos resta
é ler toda a obra reeditada da hilda hilst
que tem capas lindas
apesar de não ser da cosacnaify.
Ler tudo e constatar que a gente não escreve tão bem.
Então tomar vinho até ficar bem bêbado
e desencanar, roubar uma placa,
decorar a casa e comer um cachorro-quente na esquina.
Como se fôssemos pessoas normais,
e não as coisas que somos.
Eu, como não tenho muito ritmo, jogo as palavras
de qualquer jeito no bloco de notas,
e exatamente por não usar o word, cometo alguns
erros ortográficos que a regininha
se encarrega de corrigir.
Além de tudo, o word não entende neologismos
e sempre marca "ventogações" de vermelho
como se a palavra não existisse.
É claro que existe, e um dia ainda vou
desenredar todas elas, divinas ou não.
Só poderia desistir da poesia
- embora não acredite muito em poemas -
se depois de ler "O poeta inventa viagem,
retorno e morre de saudade"
eu comesse um punhado de cerejas
vermelhas e petit gateaus com sorvetes
de flocos e aí fosse dançar na chuva.
De outra forma, continuaria escrevendo.
II
Quando eu comecei a escrever
por causa de um poema do solda
que dizia "me entupi guarani"
(seria de cerejas?)
eu só queria mostar
como podia muito bem fazer aquilo.
Agora já me perco da simplicidade
de outros versos que um dia fiz.
Como seria tudo isso
(ou pelo menos a minha poesia)
se eu não tivesse descoberto
uma coisa chamada pós-modernismo?
III
Um dia eu escrevi um troço que
não fazia muito sentido
e por isso afirmei ser uma poesia.
Mostrei para minha professora
de português, e ela disse que
aquilo se chamava "concretismo".
Eu tinha 15 anos, foi meu primeiro
poema concreto sem saber o que
raios era o concretismo.
Não lembro muito bem dele.
Acho que era colorido e
tinha o formato da bandeira do brasil.
E todas as palavras acabavam com "mente".
Os irmãos campos que me perdoem
mas eu inventei o concretismo
no primeiro ano do ensino médio.
IV
Quando estudei as vanguardas européias
no terceiro ano do ensino médio
foi que comecei a gostar de coisas
supostamente sem sentido.
Daquela tempo data um movimento poético
chamado "pós neo futurismo"
do qual eu fui o único adepto.
Produzi pelo movimento dois manifestos
que se perderam nos anos.
Naquela época eu ainda não sabia
que o marinetti era fascista
e me dizia anarquista. Talvez pela
última meus poemas não eram tão sem
sentido quanto eu gostaria, ou quanto
são agora, que não tenho mais ideologias
para expor nos meus textos,
porque eu fazia isso, escrevia sobre liberdade,
diferente de outros poetas anarquistas
que, felizmente, escrevem sobre o amor.
Eu sempre acabo me lembrando do tzara
("sou a princípio contra os manifestos
assim como sou contra os princípios")
e sorrindo.
V
Eu acho que a poesia não é feita de poemas geniais
mas sim de versos absolutamente perfeitos.
Existem alguns poucos poemas completamente perfeitos
que devem ser lidos e relidos à exaustão
(como disse nelson: "há uns poucos livros totais...")
mas existem versos que valem por livros de poesia inteiros.
Eu tento, absurdamente em vão, compô-los.
Escrever um verso perfeito deve ser como ter um orgasmo eterno.
VI
Sempre recorrem à idade
da primeira publicação
ou à quantidade de livros publicados
para me provocar.
Há um escritor de 31 anos
que já publicou 8 livros
que tem sido uma imagem freqüente
nas provocações que uma
amiga poeta gosta de me fazer.
Ele tem um gato chamado kafka
e um romance que estou lendo e gostando.
Quando eu tiver 31 anos
e um cachorro chamado vila-matas
espero já ter publicado
ao menos um livro
do qual eu não goste.
VII
Fui muito feliz no dia
em que uma grande amiga me disse
que nunca havia dado muita bola
para a poesia, até me conhecer.
Me senti pela primeira vez
fazendo um bem à Literatura.
Ela, de qualquer forma,
fez um bem danado à minha.
VIII
Agora o que nos resta
é ler toda a obra reeditada da hilda hilst
que tem capas lindas
apesar de não ser da cosacnaify.
Ler tudo e constatar que a gente não escreve tão bem.
Então tomar vinho até ficar bem bêbado
e desencanar, roubar uma placa,
decorar a casa e comer um cachorro-quente na esquina.
Como se fôssemos pessoas normais,
e não as coisas que somos.
Eu, como não tenho muito ritmo, jogo as palavras
de qualquer jeito no bloco de notas,
e exatamente por não usar o word, cometo alguns
erros ortográficos que a regininha
se encarrega de corrigir.
Além de tudo, o word não entende neologismos
e sempre marca "ventogações" de vermelho
como se a palavra não existisse.
É claro que existe, e um dia ainda vou
desenredar todas elas, divinas ou não.
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